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  Título
O que pode a cinefilia francesa pelas cinematografias estrangeiras ? O
Autor
Pedro Maciel Guimaraes Junior
Resumo Expandido
O que pode a cinefilia francesa pelas cinematografias estrangeiras ? O caso da recepção crítica do cinema português

A cinefilia, termo que se tornou na França dos anos 50 praticamente um sinônimo de crítica cinematográfica com o aparecimento dos críticos-cineastas-militantes da revista Cahiers du Cinéma, contamina todo o pensamento cinematográfico francês contemporâneo. A cinefilia da crítica francesa, a vertente escolhida como objeto de estudo desta comunicação, atua, basicamente, em duas frentes. A primeira, mais célebre, é aquela que prega a defesa de um diretor-autor e da elevação do conjunto de filmes dirigidos por ele ao status de « obra », comparável à dos pintores e escritores – vide o caso Hitchcock e Hawks nos anos 50 e 60. A segunda, decorrente da primeira, é a que consiste na defesa de uma cinematografia nacional, normalmente de um país sem muita tradição na produção e exportação de filmes, identificada pelos críticos como um espaço geográfico-simbólico-intelectual de criação cinematográfica inovadora – à exemplo do que aconteceu com o Cinema Novo (Figuerôa Ferreira, 2000). Essa atuação sistemática do discurso crítico voltado para a valorização de uma cinematografia nacional, no caso a de Portugal, será o objeto específico de nossa apresentação. Nosso trabalho pretendeu analisar o discurso crítico – termo genérico que envolve a cobertura jornalística e crítica de maneira global – de cinco periódicos franceses e cinco portugueses em torno de 40 filmes portugueses lançados na França entre 1993 e 2003. O recorte temporal nos foi dado pelo interesse da crítica francesa dispensada, a partir do inicio dos anos 90, ao cinema de Manoel de Oliveira. Não é por acaso que 1993 foi o ano de lançamento de Vale Abrãao, filme que obteve um grande interesse crítico nos dois países e abriu as portas do mercado exibidor francês, e também europeu, para os filmes portugueses. A análise foi dividida em dois momentos. O primeiro consiste na análise formal da recepção crítica desses filmes e o segundo, na análise de conteúdo das críticas. Para tanto, inventamos uma metodologia de análise baseada em elementos estatísticos e estudos sobre recepção fílmica. A análise formal da cobertura dos filmes foi feita de maneira científica, através do cruzamento de dados. Para tanto, foram atribuidos critérios de avaliação de acordo com cada elemento que pudesse singularizar e valorizar o aparecimento dos filmes portugueses nas páginas dos jornais franceses e portugueses. Já a análise de conteúdo foi feita de acordo com o tom global da crítica ou da resenha jornalística, sem levar em consideração quadro de cotações ou a qualidade analítico-teórica dos textos. Alguns jornais portugueses como O Jornal de Letras, Arte e Ideias, e os franceses Cahiers du Cinéma e Positif mereceram análises específicas pois não possuem equivalentes imediatos no outro país, critério principal da escolha dos títulos de imprensa. Da mesma maneira, a revista Première, editada nos dois países, mereceu uma análise individualizada que leva em consideração o status do cinema nacional junto ao público de ambos os países. Nossa intenção era avaliar o impacto das críticas positivas e da defesa escancarada de alguns autores (Oliveira, Monteiro, Pedro Costa) na vida comercial dos filmes. Duas perspectivas foram levadas em conta no que diz respeito ao resultado dessas críticas : o número de espectadores de um filme nas salas de cinema e a ampliação do mercado de exibição para os filmes de um mesmo diretor (do circuito de arte para o circuito comercial, por exemplo). Analisamos também a recepção específica de alguns autores do cinema português atual, alguns dos quais que gozam de um reconhecimento internacional (os acima citados) e outros que obtiveram atenção pontual da imprensa (João Pedro Rodrigues, Paulo Rocha). A linha de raciocínio essencial da nossa pesquisa esta voltada para o papel da militância da cinefilia francesa no reconhecimento e na projeção dos filmes portugueses

Bibliografia

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FERNANDEZ Manuel, L’Analyse semio-linguistitique d’un discours de presse : La Critique Cinématographique, tomes 1 et 2, Th. Univ : Science du Language : Paris XIII (UFR de Lettres et Sciences Humaines, Paris), 1992.JULLIER Laurent, « La critique de cinéma entre raison et je-ne-sais-quoi », Esprit, novembre 2005, p. 38-55

ETHIS Emmanuel, Sociologie du Cinéma et de ses publics, Paris : Armand Colin, 2005.

JULLIER Laurent, Qu’est-ce qu’un bon film ?, Paris : La Dispute/Snédit, 2002.

LAULAN Anne-Marie, Cinéma : presse et public, Paris : Actualité des Sciences Humaines-Retz, 1978.

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FIGUEROA FERREIRA Alexandre, La Vague du Cinéma Novo en France fût-elle une invention de la critique ? Paris : L’Harmattan, 2000.

COSTA, João Bénard da, O cinema português nunca existiu, Lisboa : CTT, 1996.