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  Título
Filmes: mapas culturais do espaço geográfico
Autor
Maria Helena Braga e Vaz da Costa
Resumo Expandido
Esse trabalho promove uma reflexão sobre as imagens cinematográficas como formadoras culturais do espaço geográfico. A idéia é discutir o cinema enquanto uma linguagem partícipe na concretização em realidade das visões, imaginações, entendimentos e concepções sobre o espaço geográfico desmistificando a concepção dos defensores do conceito de representação como uma contrapartida de um real existente e que com nossas linguagens o representamos. Pretende-se, portanto, defender a noção de que, com nossas linguagens, com filmes mais particularmente, partimos das sombras na direção do real para darmos a ele existência, não ao contrário.

A idéia defendida aqui é a de que há sim uma correlação estreita entre a imagem fílmica de um determinado espaço geográfico e sua contrapartida na realidade concreta, mas não pela via do entendimento da imagem fílmica como representação do real, e sim do entendimento da imagem e do espaço narrativo, tanto como elemento constituinte da própria formação, experiência e entendimento do espaço geográfico real quanto como um dos elementos responsáveis pelo imaginário coletivo e cultural que substanciam sua existência e sua experiência permite.

Por ser o cinema um aparato enraizado na ideologia do realismo, tradicionalmente considerado como um “meio de reprodução do real”, filme teria a capacidade de estreitar as relações entre o mundo real e sua imagem produzida. No entanto, partindo do princípio que filme não é representação, o objeto fílmico pode ser pensado em relação a sua independência do objeto real a ponto de considerá-lo como apto até mesmo a tomar o lugar do objeto real.

Filmes servem não somente como objeto para a crítica, mas como re-ordenamento das “imaginações geográficas” que adquirimos do mundo. Por isso mesmo Crang (1998) explica que: “… o conhecimento da maioria das pessoas sobre a maioria dos lugares se adquire através da mídia de vários tipos (p.44, tradução minha).

Se filme (assim como outras linguagens - fotografias, mapas, textos literários, etc.) fosse considerado como um meio de inventar espaços e lugares na mesma medida em que é resultante das maneiras de imaginar e pensar o espaço, e menos como um meio de representação do mundo, todo e qualquer filme teria uma marca nítida que o conectaria diretamente como a forma de criação e produção humana inserida no contexto sócio, econômico, político e cultural e que seria identificada com facilidade no próprio espaço real. Mas filmes são vistos sob o contorno do espelhamento do real e como sendo tributários da linguagem do próprio espaço para dizer de si mesmo através da sua imagem.

Proporei aqui um modo alternativo para a tendência mencionada. Os caminhos de pesquisa mais promissores, em minha opinião, são aqueles que negam, antes de qualquer coisa, a idéia de representação, uma vez que isto evita a criação da idéia de que o espaço é uma superfície lisa, que ele é algo estático, um corte no tempo, uma simultaneidade integrada, com conexões inter-relacionadas, sem desencaixes, por onde flui uma única história.

Filme deve ser pensado como um acontecimento resultante de articulações e desarticulações entre as multiplicidades simultâneas que coexistem em certo lugar. Todo filme, com suas imagens geográficas, apresenta o mundo de determinada forma, sob determinado olhar e entendimento espacial. Proponho que pensar o filme como produto do encenar ações em locais distantes e seqüenciá-las como se fizessem parte de um único espaço, pode ser o ponto de partida para a desmistificação da idéia consensual sobre filme como cópia direta do real. O espaço geográfico no filme é uma imagem criada por imagens “escolhidas” previamente e que, juntas, são capazes de dizer muito sobre como a imagem geográfica é de certo modo produto da imaginação e da subjetividade de atores partícipes na concepção e realização desses mundos agindo como uma “ponte” indispensável ao entendimento dos espaços e dos lugares que vivenciamos.

Bibliografia

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Cosgrove,D.E.;Daniels,S.The Iconography of Landscape.Cambridge:Cambridge University Press,1988.

Cosgrove,D.E.Social Formation and Symbolic Landscape.London:Croom Helm,1984.

Crang,M.Cultural Geography.London:Routledge,1998.

Cunha,Renato(Org)O Cinema e Seus Outros.Brasília:LGE Editora,2009.

Duncan,J.S.;Ley,D.(Eds)Place/Culture/Representation.London:Routledge, 993.

Hall,S.(Ed)Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. London:Sage Publications,1997.

Harvey,D.Justice, Nature & the Geography of Difference.Oxford:Blackwell Publishers,1996.

Hopkins,J.Mapping of Cinematic Places:Icons, Ideology, and the Power of (Mis)representation(47-65).In Aitken,S.C.;Zonn,L.E.(Eds)Place, Power, Situation and Spectacle: A Geography of Film.Lanham:Rowman & Littlefiel.