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  Título
As produções transnacionais de língua portuguesa - uma comparação
Autor
Carolin Overhoff Ferreira
Resumo Expandido
O caso das co-produções de língua portuguesa é um caso particularmente complexo por causa das alegadas peculiaridades da colonização portuguesa. Esta tem sido descrita por autores como Boaventura Sousa Santos (2001) e David Landes (2002) como incompetente e ineficiente, porém, marcada pela hibridação e a construção de inter-identidades. O debate da identidade nacional portuguesa apresenta igualmente um problema pouco comum, estudado a fundo por Eduardo Lourenço (1999) que alega que o fim do Império português, após a Revolução de 25 de Abril em 1974, significou para Portugal, pela primeira vez, a falta de rumo e referência na sua história, anteriormente sempre voltada de forma messiânica para o futuro. Por certo, a nova condição de estado membro do espaço econômico supranacional europeu provocou uma crise diplomática a partir de 1993 quando esta nova identidade junto com a assinatura do tratado de Schengen fez com que os cidadãos brasileiros e os dos PALOP fossem barrados nos aeroportos de Portugal.

Apesar do aumento de acordos e de protocolos entre os países membros e suas instituições responsáveis para a produção cinematográfica desde os anos 90, com o objetivo de fortalecer novamente os laços senão políticos, pelo menos culturais entre os países de língua portuguesa, o número de filmes co-produzidos têm aumentado, contudo, somente entre alguns dos países membros. É assinalável que quase todas as co-produções realizadas até hoje resultaram de colaborações entre Portugal e suas ex-colônias.

As histórias coloniais dos PALOP e do Brasil são obviamente bastante diferentes. Enquanto o Brasil já está independente há quase dois séculos, os PALOP nem cumpriram cinqüenta anos de liberdade. No entanto, tanto na África de língua portuguesa quanto no Brasil existem os discursos e mitos parecidos sobre os fortes laços culturais e identitários. Para melhor entender as semelhanças e diferenças dentro do espaço onde se fala o português oficialmente, interessa-nos comparar os discursos desenvolvidos pelos dois grupos de co-produções transnacionais, ou seja, os filmes luso-brasileiros com os filmes luso-africanos, bem como com os luso-afro-brasileiros. Pretendemos descobrir até que ponto os antigos mitos sobre as relações amistosos e de familiaridades, nomeadamente o da lusofonia, que foi reaproveitado na criação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), em 1996, que serviu como instrumento de apaziguação pós-Schengen, e o do luso-tropicalismo, isto é, a convivência pacífica e a mistura sem preconceitos de raças no espaço lusófono, sobreviveram e aparecem nos filmes referidos.Além do mais, a própria CPLP insiste na igualdade de todas as ex-colônias.

O conceito chave nesta análise será a transnacionalidade, conceito este que se popularizou nas últimas décadas e que proporciona a diferenciação entre co-produções com fins ideológicos e mercadológicos, e outros que procuram estabelecer um diálogo verdadeiramente transnacional, ou seja, que quebram fronteiras e levam em consideração não só as identidades, mas também as diferenças entre os países envolvidos. No contexto do espaço de língua portuguesa, o conceito ajudará esclarecer melhor as possíveis diferenças (ou de fato semelhanças) em relação aos discursos desenvolvidos por países tão distintos.

Visamos, por conseguinte, comparar a análise já efetuada das 26 co-produções luso-brasileiras com aquela das 20 co-produções luso-africanas, com o objetivo de demonstrar se permanecem os discursos fortemente enraizados nas culturas de língua portuguesa, apesar das inúmeras diferenças entre os países e o fato de estes discursos terem sido questionados em diversas áreas do saber no contexto dos estudos pós-coloniais. Ou seja, será que o cinema consegue apresentar o espaço lusófono em sua diversidade pós-colonial ou apenas sob o prisma de uma unidade imaginária que remete ao imaginário colonial.

Bibliografia

Agência Nacional do Cinema. Protocolo luso-brasileiro de co-produção cinematográfica, 2007. Agência Nacional do Cinema. www.ancine.gov.br/media/protocolo_luso_brasileiro_julho_2007.pdf. Accessed on 14 January 2008.

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Hjoert, Mette e Scott MacKenzie, eds. Cinema and Nation. London e New York: Routledge, 2000.

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