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  Título
A Doença de Eros: O Desejo no Cinema Contemporâneo
Autor
Henrique Codato
Resumo Expandido
Camille Dumoulié (2005) afirma que cada século apresenta um mito ideal próprio ao seu percurso histórico. Se a “ordem” foi o mito idealizador do século XVII, e a “felicidade” o do século XVIII, o “progresso” serviu para fundamentar a história do pensamento no século XIX. Nesta perspectiva, o autor nos convida a refletir sobre qual seria o ideal que emerge em nossa época e acaba por concluir que, entre os muitos “mitos que nos martirizam”, o do “desejo” é aquele que encobre o nosso tempo.

Como bem prevê Guy Debord (1997), o espetáculo se generalizou. A sociedade do espetáculo faz com que o desejo se mova de lá para cá, sempre veloz, percorrendo todos os lugares e, ao mesmo tempo, faz com que ele escape por entre nossas mãos de forma fugidia e errática. Se o desejo pode ser considerado, nas palavras de Jean-Jacques Wunenburger (1997, p.35), “o mais importante motor na produção de imagens irreais, cuja realização visaria satisfazer a própria faculdade de desejar do sujeito”, parece-nos difícil pensar o lugar do espectador de cinema sem colocarmos em questão a natureza e a força do desejo que se apresenta em operação na relação entre o filme e o exercício do olhar (COMOLLI, 2008, p.136).

Entender de que forma o desejo serve de leitmotiv para a sétima arte em nossos dias e como sua figuração se articula no sentido de convocar o olhar do espectador é, assim, a pergunta que nos guia nesta pesquisa. Parece-nos que alguns filmes contemporâneos, ao esboçarem alguma coisa da ordem de um potencial desorientador na capacidade humana, tiram o espectador de seu habitual lugar de voyeur, aquele que “perversamente desejaria ver, mas desde que não visse tudo, (...) colocando-se em posição de não ser visto, mas cujo desejo, seria, na realidade, ser pego em flagrante delito e, ao ser visto, entrar na cena interdita” (COMOLLI, 2008, p.141). A partir de uma nova forma de experiência, o espectador, ao ser convocado a encarar o mundo das sombras, “o ponto profundamente obscuro na direção do qual a arte, o desejo, a morte e a noite parecem dirigir-se” (BLANCHOT, 1999, p.225), transformar-se-ia numa espécie de testemunha, ocupando o “lugar imaginário de um senhor que não se expõe para observar os outros, sujeitos e corpos expostos no filme” (COMOLLI, 2008, p. 304). As produções que escolhemos analisar encabeçam, de forma emblemática, uma polêmica lista dos dez melhores filmes da década de 2000, elaborada por dezesseis críticos especializados e publicada pela revista Cahiers du Cinéma em sua edição de janeiro de 2010. São elas: A Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, David Lynch, 2001); Elefante (Elephant, Gus Van Sant, 2003) e Tropical Malady (Sud Palad, Apichatpong Weerasethakul, 2004).

Defendemos a idéia de que tais filmes, ao utilizarem a transgressão como núcleo de sentidos para seus discursos, chegariam à extremidade da experiência erótica que, em última instância, lembremos, não é o sexo, mas a morte, pois “é para as gratificações da morte, sucedendo e ultrapassando as de Eros, que toda busca verdadeiramente obscena se dirige” (SONTAG, 1987, p.64). Notamos que estas obras, ao apresentarem uma narrativa fragmentada, que se utiliza de figuras como a do deslocamento e da descontinuidade em sua estrutura, possibilitariam a manifestação de determinados sintomas que muito têm a dizer sobre a condição na qual se encontra o sujeito contemporâneo. A hipótese que levantamos é a de que estas narrativas, ao se afirmarem no vaivém entre o limite e o ilimitado, entre a realidade e o fantasma, entre o mythos e o logos, fazem com que o espectador de cinema seja convocado a vivenciar uma espécie de estranhamento, “já que o mito, qualquer mito, é uma expressão da profunda estranheza que, sempre e em todas as partes, experimentam os humanos em meio à sua vida cotidiana” (DUC, 1998, p.52), fazendo-o oscilar, à deriva, entre o desejo de ser enganado e o de tudo saber.

Bibliografia

COMOLLI, J-L. Ver e Poder. Belo Horizonte: UFMG, 2008;

DUMOULIÉ, C. O Desejo. São Paulo: Ed. Vozes, 2005

GUIMARÃES, C. ; LEAL, B. ; MENDONÇA, C. (org.). Comunicação e Experiência Estética. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006.

LACAN, J. Ecrits. Paris : Seuil, 1988.

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SONTAG,S. Contra a Interpretação. Porto Alegre: L&PM, 1987.

WUNENBURGER, J-J. Philosophie des Images. Paris : PUF, 1997.

ZJZEK, S. La Subjectivité à venir: Essais critiques. Paris : Champs-Flamarion, 2006.