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  Título
Entre Valentinas e Adelitas: as soldaderas e a cultura (audio)visual mexicana
Autor
Maurício de Bragança
Resumo Expandido
As soldaderas - mulheres que se incorporaram às tropas revolucionárias no movimento mexicano da segunda década do século passado - tornaram-se um forte arquétipo na cultura visual do país, tendo sido reapropriadas mais recentemente pelo discurso feminista mexicano e chicano. Nesta releitura contemporânea, porém, sua imagem tem sido reconstruída a partir da reivindicação de uma autonomia destas personagens que, no discurso histórico tradicional, foram inscritas como colaboradoras do trabalho dos homens nos campos de batalha, a quem davam suporte, na retaguarda, como cozinheiras, enfermeiras e nos serviços domésticos em geral. Os mais recentes trabalhos na área de história do México vêm reconsiderando a importância do papel das soldaderas na Revolução, realocando-as nas frentes de combate, onde ocuparam importantes papéis na liderança das tropas sublevadas. Por todo o século XX, as imagens das soldaderas fomentaram um imaginário na cultura de massa mexicana a partir da circulação dos diversos corridos dedicados a elas e das imagens produzidas pelo fotojornalismo e, posteriormente, por sua representação em filmes de ficção como Enamorada (Emilio Fernández, 1949), La Cucaracha (Ismael Rodríguez, 1958), Pancho Villa y la Valentina (Ismael Rodríguez, 1958), Juana Gallo (Juan Zacarías, 1961) e La Soldadera (José Bolaños, 1967), dentre muitos outros. Sabemos que Sergei Eisenstein em seu inacabado Que Viva México! tinha a intenção de filmar o episódio da Revolução Mexicana, ao qual daria o título de “Soldadera”, e para o qual se inspiraria na monumental obra do pintor muralista mexicano José Clemente Orozco. Na cultura popular mexicana contemporânea, as soldaderas foram resgatadas como um vigoroso personagem dos textos apresentados em cabarés e na releitura de um cancioneiro popular dedicado a elas. Astrid Hadad e Jesusa Rodríguez, performers cabareteras mexicanas que reaqueceram o cenário deste tipo de espetáculo de revista no país a partir dos anos 1980, apresentam números devidamente trajadas com suas vestimentas características. Em 2008 as soldaderas invadiram, em atos-performances de Jesusa Rodríguez e seu grupo, os palanques políticos da esquerda mexicana no movimento contra a privatização da PEMEX, indústria de extração petroleira nacional. Retomadas, então, como símbolos da cultura política ativista mexicana, estas representações das revolucionárias marcam uma forte presença no imaginário popular mexicano, num movimento de inserção das teorias feministas apropriadas no âmbito da cultura de massa. Aproveitando as discussões mundiais acerca do centenário da Revolução Mexicana, esta comunicação pretende repensar de forma crítica a produção (audio)visual em torno do movimento tomando como recorte a circulação de imagens das soldaderas no circuito promovido pelo fotojornalismo, pelos cinejornais e pelo cinema de ficção mexicanos. Problematizando as relações entre imagem, história e gênero, o objetivo é discutir a construção e a permanência desta espécie de arquétipo feminino no imaginário popular mexicano. Partindo da idéia de desnaturalização das categorias de sexo e gênero, Judith Butler defende que “o gênero é performativo porque é resultante de um regime que regula as diferenças de gênero. Neste regime os gêneros se dividem e se hierarquizam de forma coercitiva” (Butler, 2002, p. 64). Neste sentido, o cinema de melodrama clássico mexicano dos anos da Época de Ouro confirmou uma performatividade relacionada às representações da soldadera que ratificava o âmbito do sentimento e da domesticidade como regulador de um imaginário associado a esta personagem feminina. Esta comunicação tem, portanto, o objetivo de problematizar a produção dessas imagens diufundidas por este repertório cinematográfico num diálogo que alia história, cinema e estudos de gênero, confirmando a cultura (audio)visual como o espaço privilegiado, na América Latina, para a construção destes estereótipos no imaginário popular.
Bibliografia

BARTRA, Eli. “Faldas y pantalones: El género en el cine de la Revolución Mexicana” In MRAZ, John. Cinema and History in Latin America. Film Historia. Volumen IX Número 2, 1999. Barcelona

BUTLER, Judith. “Críticamente subversiva”. In: JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida. Sexualidades transgresoras. Una antología de estudios queer. Barcelona: Icária editorial, 2002, p. 55 a 81.

HERSHFIELD, Joanne. Mexican cinema, mexican woman (1940-1950). Tucson: U of Arizona, 1996.

KAPLAN, E. Ann. A mulher e o cinema: os dois lados da câmera. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da História. Bauru-SP: EDUSC, 2005.

PONIATOWSKA, Elena. Las soldaderas – women of the Mexican revolution. El Paso, TX: Cinco Puntos Press, 1999.

RAGO, Margareth. Descobrindo historicamente o gênero. Cadernos Pagú. Campinas. Nº11. p.89 -98. 1998.

TROINA, Carina Andrade. Maneiras outras de contar: o corrido e o cordel. Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFF.