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  Título
Os filmes Cult: seus modos de recepção e seus públicos
Autor
mahomed bamba
Resumo Expandido
Parece que são os filmes que nos olham e não o contrário. Em regra geral, são a indústria cinematográfica e a crítica que impõem esses filmes aos públicos, colocando-os em seu caminho e entre suas prioridades. Mas existem situações em que somos nós, espectadores, que perseguimos as obras fílmicas (por exemplo, vendo-as mais de uma vez, de forma gregária ou individualmente, dando-lhes uma nova vida e uma chance que não tiveram no momento de seu lançamento comercial). É parte desta relação poliforma e dialética dos espectadores com as obras que alguns “cultos cinematográficos” ilustram.



Determinados públicos, ao revisitarem práticas cinematográficas, acabam por cultuarem cineastas ou filmografias inteiras; reabilitam, com suas leituras, às vezes, “delirantes” e sem amarras às instruções textuais, obras fílmicas e marcam-nas com o selo de “filme Cult”. De todas as classificações cinematográficas (ou gêneros), é o rótulo de “filme Cult” que denota mais uma atitude pró-ativa e saudosista de uma parcela dos espectadores e um modo particular de apropriação simbólica das obras fílmicas. Um filme pode ser elaborado e lido como um drama sentimental, uma comédia ou um filme noir de acordo com convenções, modos de enunciação ou intenções (situados no pólo da fabricação/criação institucional do cinema). O mesmo filme pode, eventualmente, tornar-se Cult, isto é, revestir-se de uma nova característica classificatória, só no decorrer da sua evolução como obra interpretada, isto é, num determinado momento/contexto de uso e de apropriação simbólica pelos diferentes públicos.

Para discutirmos as lógicas plurais que asseguram a natureza constitutivamente social, histórica e pragmática da relação dos públicos com as obras fílmicas, recorremos a noções teóricas básicas oriundas da sociologia da recepção (mais exatamente da sociologia dos públicos e das obras), das teorias da leitura e da semiopragmática (no sentido de problematizar, de um lado, a relação dialética entre contexto, obra e práticas de leituras, e para enfatizar, de outro lado, o peso as determinações textuais na mobilização de alguns modos de leitura exigidos pela produção/recepção dos filmes ditos Cult). Privilegiamos o estudo da recepção dos filmes Cult, tal como ela se manifesta numa Mostra e num canal de TV temática, por acreditarmos que ambos os espaços representam modos de constituição diferentes de uma comunidade de interpretação (com interesses e disposições estéticas comuns) em torno de fatos fílmicos particulares. Enquanto uma Mostra (ou exibição pública) ilustra o aspecto mais espontâneo e coletivo da recepção ritualizada das obras definidas como Cult, a concepção de um canal de televisão com o rótulo de Tv-Cult, por exemplo, não passa, às vezes, de uma estratégia de recuperação comercial de uma prática fílmica (e espectatorial) que corre solta às margens da instituição-cinema. A prática cinematográfica que produz filmes Cult é tão marginal quanto os modos de recepção destas obras. Sendo assim, escolhemos, para as finalidades de nossa análise de caso, dois exemplos de espaços dedicados à exibição/recepção dos filmes ditos Cult no Brasil: a III Semana do Filme Cult (de Natal-RN) e o Telecine Cult (TV fechada). Através da análise dos critérios de seleção dos filmes nestes contextos de exibição, bem como da descrição dos perfis e do julgamento de gosto dos freqüentadores destes contextos de exibição, procuraremos examinar as lógicas de apropriação simbólica e os conflitos (ou discrepâncias) entre as normas de usos e leituras “convenientes e legítimas” das obras fílmicas e a disposição estética particular em que podem ser recebidas (e, ocasionalmente, transformadas em filmes Cult) nestes espaços de interpretação habitados por espectadores pouco ordinários.

Bibliografia

AUBRY, Danielle; VISY, Gilles (orgs.): Les oeuvres cultes: entre la transgression et la transtextualité. Paris: Éditions Publibook, 2009

BOURDIEU, Pierre: A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2009

..............................A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2008

CALVINO, Italo: Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007

ECO, Umberto: Os limites da interpretação. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2008

ESQUENAZI, Jean-Pierre: Sociologie des publics. Paris: La Découverte, 2003.

GENTTE, Gerard (et alii). Théorie des genres. Paris: Éd. Seuil, 1986

MATHIJS, Ernest; MENDIK, Xavier: The Cult film reader. New York: Open University Press, 2008

ODIN, Roger: “La question du public, approche sémio-pragmatique”. In Cinéma et Réception (Réseaux), Paris: Hermès Sciences Publications, 2000