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  Título
Amácio Mazzaropi e a contradição das recepções cinematográficas
Autor
Guilherme Seto Monteiro
Resumo Expandido
Tendo participado de trinta e dois filmes ao longo de vinte e oito anos de carreira, Amácio Mazzaropi(1910-1981) ganhou fama entre o público durante os anos mais conturbados da história nacional, e foi contemporâneo dos mais criativos profissionais da história do cinema nacional. Entre os cinqüenta filmes de maior bilheteria de todos os tempos no país, Mazzaropi participou de sete deles (Caetano,2008). Entretanto, a despeito de seu sucesso comercial, Mazzaropi foi, em grande medida, condenado ou ignorado pela crítica especializada que lhe foi contemporânea, reação repetida pelos estudos acadêmicos posteriores.

A apresentação proposta tem como seu tema central essa relação contraditória entre crítica cinematográfica e sucesso popular: como explicar o contraste existente entre o rechaço quase que consensual do cinema de Mazzaropi pela crítica cinematográfica que lhe foi contemporânea e a imensa aprovação popular que possuía? Como interpretar esse desencontro radical entre a recepção crítica e a recepção popular em relação a esse cinema?

Primeiramente, deve ser feito o esforço para localizar a posição ocupada por Mazzaropi no interior do campo cinematográfico de seu tempo. Tendo surgido como ator de produções de “segunda linha” do cinema industrial paulista, Mazzaropi é ignorado pela crítica do começo da década de 1950. Do final da década de 1950 até 1970, Mazzaropi vive seu período mais prolífico, tendo feito quatorze filmes de 1958 a 1969 com sua própria produtora, a PAM, participando como diretor e argumentista na maioria deles. Nesse momento, ele convive com a geração mais criativa do cinema nacional, a do Cinema Novo, num momento em que a história política e social do país parecia que tomava rumos promissores e em que a cultura nacional parecia tomada por uma relativa hegemonia de esquerda (Schwartz,1978). Do lado do Cinema Novo, o cinema de Mazzaropi não era bem recebido, como seria de se esperar: as carapuças de “alienado” e “instrumento do imperialismo” lhe eram freqüentemente impostas por críticos como Glauber Rocha, Armindo Blanco e Jean-Claude Bernardet. Ao mesmo tempo, críticos de outra tradição, mais apegados à escola norte-americana de cinema, como Moniz Vianna e B.J. Duarte, saudosos do ambicioso projeto da indústria cinematográfica paulista e encantados com os filmes hollywoodianos, também recusavam o cinema de Mazzaropi, por seu suposto “primarismo”. Desse modo, vê-se durante as décadas de 1950 e 60 Mazzaropi afastado de todos os instrumentos de consagração ligados à imprensa escrita, o que certamente contribuiu à consolidação posterior da imagem negativa de seus filmes em certos meios.

Num segundo momento, a exposição deve seguir o caminho do entendimento da relação que existiu no interior das salas de cinema entre os filmes de Mazzaropi e o público que compunha sua audiência. Tal como constatam diversos críticos da época, o público que freqüentava as exibições dos filmes de Mazzaropi era predominantemente de migrantes do interior do país, que chegavam aos borbotões às metrópoles, com a esperança de melhora de suas condições de vida. Chegando aos centros urbanos, encontravam uma situação bastante diferente, e se viam envolvidos numa rotina de anomia social e cultural, distantes e saudosos de suas terras de origem. Nesse contexto, o cinema de Mazzaropi adquire uma importância exponenciada, ao propor narrativas nas quais a cultura caipira era retomada e revalorizada (na forma e no conteúdo), nas quais os personagens interioranos ocupavam o centro dos sistemas relacionais (Sorlin,1982) e nas quais os migrantes podiam reconhecer formas artísticas ligadas às tradições culturais dos locais de onde haviam saído (teatro popular, circos, músicas regionais etc.). Por meio de entrevistas com antigos espectadores dos filmes de Mazzaropi, cheguei a resultados que reforçam essa hipótese do cinema mazzaropiano como “abrigo do caipirismo” nas metrópoles em formação, os quais pretendo apresentar por meio do espaço requisitado
Bibliografia

BOURDIEU, Pierre (1998). Les règles de l´art. Paris: Éditions du Seuil.

BRANDÃO, Ignácio Loyola (4 de fevereiro de 1965). “Contribuição de Mazzaropi para o retrocesso”. Jornal Última Hora.

CAETANO, Maria do Rosário. “As maiores bilheterias do cinema nacional”. Em: Revista de cinema. Via URL: http://www2.uol.com.br/revistadecinema/fechado/os50maisvistos/edicao24/os50maisvistos_01.html; acessado em 12/2008.

CANCLINI, Néstor (1996). Culturas híbridas. São Paulo, SP: Edusp.

HALL, Stuart (2008). Da diáspora. Belo Horizonte, MG: ed. UFMG.

JAMESON, Fredric (1995). As marcas do visível. Rio de Janeiro, RJ: ed. Graal.

MARTÍN-BARBERO, Jesus (2009). Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: ed. UFRJ.

SCHWARTZ, Roberto (1978). “Cultura e política”. Em: O pai de família e outros ensaios. Rio de Janeiro: ed. Paz e Terra.

SORLIN, Pierre (1982). Sociologie du cinéma. Paris: Aubier.

WILLIAMS, Raymond (1975). The country and the city. Nova York: Oxford University press.