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  Título
Imagem, ação, presenças e encontros em instalações interativas.
Autor
Fernanda de Oliveira Gomes
Resumo Expandido
Uma das marcas observadas na contemporaneidade é o surgimento de novas formas de sociabilidade criadas por dispositivos técnicos, assim com uma socialização do mundo sensorial e do aparelho perceptivo dentro de um fenômeno de excesso de presença. Esse tipo de situação social acaba criando formas sensíveis articuladas pelos sujeitos implicados em seus processos. A arte contemporânea mostra que só há forma no encontro, na relação dinâmica que uma proposta mantém com outras propostas, sejam elas artísticas ou não. Na perspectiva de Espinosa, quando acontecem bons encontros entre os corpos, as potências de ser, agir e pensar aumentam. Como a potência de agir é o que abre o poder de ser afetado ao maior número de coisas, é bom “aquilo que dispõe o corpo de tal maneira que possa ser afetado pelo maior número de modos. Ou então aquilo que mantém a relação de movimento e de repouso que caracteriza o corpo” (DELEUZE, 2002, p. 61). Este trabalho identifica algumas instalações interativas como situações de bons encontros entre os corpos da obra e os corpos dos espectadores, assim como as imagens da obra e as imagens dos espectadores. Dessa forma, um todo mais potente é constituído, ou seja, uma totalidade superior que inclui todos os elementos. Os artistas são aqueles que organizam estes encontros, compondo relacionamentos vivenciados, procurando aumentar as potências daqueles que estão envolvidos no seu processo. A partir de Espinosa, Deleuze afirma que não podemos nos separar de nossas relações com o mundo: o interior é somente um exterior selecionado; o exterior um interior projetado; a velocidade ou a lentidão das percepções, ações e reações entrelaçam-se para constituir tal indivíduo no mundo. É necessário observar as diversas possibilidades de como essas relações são efetuadas conforme as circunstâncias ou os poderes de ser afetado. Esse tipo de direcionamento pode ser bem útil no momento de identificar as qualidades das instalações interativas. Que possibilidades de relações elas oferecem para seus espectadores? Como elas aumentam a potência de agir dos corpos que as preenchem? Para entender como as imagens são e devem ser trabalhadas em instalações interativas, é importante considerar os estudos que foram feitos para o cinema como pontos de partida para novas perspectivas. Este trabalho se lança então em uma série de exercícios de apropriações, retomando considerações e análises fundamentais realizadas por Deleuze em suas obras dedicadas ao cinema: "Imagem Tempo" e "Imagem Movimento". O que propomos a seguir é uma “releitura deslocada” para imagens e experiências de instalações interativas. Ao instituir a imagem-ação como uma relação entre meios e comportamentos, Deleuze abre novamente um caminho a ser trilhado para as instalações interativas, nas quais são possíveis contínuas variedades destas relações: meios que sempre atualizam qualidades e potências e comportamentos que respondem a estes meios. Se nos referimos à atualização do movimento realizada no corpo do espectador em tempo real no ambiente de uma instalação interativa, percebemos como a experiência pode se tornar ainda mais rica, tendo em vista a forma como imagens exteriores podem agir sobre os corpos, transmitindo movimentos e possibilitando restituições destes movimentos. Seria efetivamente a imagem viva, a imagem que surge a partir da relação com o movimento acolhido e seleção do movimento executado. O corpo do espectador seria este potencial sistema de imagens que varia, que recebe a ação das outras imagens e que reage como centro de indeterminação, apreendendo ações virtuais, ao mesmo tempo em que se torna consciente da ação possível que exerce sobre elas (DELEUZE, 1983, p.83-87). A expectativa colocada por este trabalho é exatamente em relação aos processos criativos de produção e recepção deste tipo de obra, que assim como o cinema passará por diversas evoluções a partir do esgotamento de fórmulas e de um domínio cada vez maior de técnicas e linguagens.
Bibliografia

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