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  Título
A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DO CINEMA SOB A PERSPECTIVA DE UMA ESTÉTICA DIALÉTICA
Autor
Rodrigo Oliveira Lessa
Resumo Expandido
A utilização do cinema como ponto de apoio ou como instrumento fundamental de compreensão da realidade social tem, ao longo dos anos, se concretizado de formas distintas em algumas áreas do conhecimento, como a história, a psicologia e a semiótica (na comunicação). No caso das Ciências Sociais, e em particular da Sociologia, não tem sido diferente. No entanto, a concepção de representação social cinematográfica neste campo invoca um aspecto fundamental: a dualidade do condicionamento objetivo e subjetivo que esta apresenta na medida em que corresponde à externalização objetivada do mundo por um sujeito em permanente relação com o mundo social. Ou seja: pela análise sociológica, a obra de arte cinematográfica pode ser relacionada com a realidade social tanto pelo que há em termos da objetivação pelo indivíduo de formas, conteúdos, situações e questões apreendidas na relação com o mundo – seja na forma de uma circunstância histórica, da dinâmica vivida no cotidiano, de uma problemática social ou inquietação pessoal – como pode, ao mesmo tempo, ser pensada no modo pelo qual o imaginário, as visões de mundo, a ideologia ou a cultura (seja a partir de que prisma venha a ser trabalhada) transportam-se para a obra por meio da subjetividade do artista. Como propõe Franceso Casetti Federico Di Chio: “Se pueden utilizar los instrumentos de la sociologia, afrontando el film como uma representación más o menos completa del mundo em que operamos, como um espejo y a la vez como um modelo (para alguns se tratará más de um espejo y para otros más de um modelo) de lo social.” (1998, p. 29).

Pensada sob a perspectiva dialética – recuperamos as noções de Friederich Hegel e as releituras pautadas no marxismo de autores como Theodor Adorno e Georg Lukács – esta concepção sociológica dual ganha ainda uma densidade maior. Isto porque, sob esta linha de pensamento, não cabe falar separadamente sobre a apreensão do mundo pelo indivíduo por meio da representação ou do caráter socialmente condicionado da leitura que este exerce sobre o mundo social: o caráter objetivo e o subjetivo na obra de arte existem como um só momento. Ao que Adorno chama a atenção: “O totum [todo]das forças investidas na obra de arte, aparentemente algo de subjectivo apenas, é a presença do potencial do colectivo na obra, em proporção com as forças produtivas disponíveis: contém a mónada sem janelas.” (2008, p. 74). Assim, também, de outro ângulo, mas com o mesmo sentido: “Sem dúvida, o momento mimético inalienável na arte é, segundo a sua substância, um universal que, no entanto, só é possível atingir através da idiossincrasia individual.” (2008, p. 71).

Em que pese a existência de uma problematização teórica no campo da sociologia que se preocupa em trabalhar dialeticamente as duas faces da representação, é comum observarmos entre teóricos do cinema concepções que sugerem uma determinação monolítica do filme a partir de uma ou outra face refigurativa. Se por meio de autores como André Bazin (2006) – teórico basilar para a perspectiva realista do cinema – foi fortalecida a reflexão a respeito de uma “essencial objetividade” da imagem fotográfica, a qual daria ensejo à consolidação estética no cinema do “mito do realismo integral” ou recriação do mundo à sua imagem, amplia-se cada vez mais o enfoque para o papel das idiossincrasias na interpretação e problematização das obras, seja definindo que são resultado direto da “livre” criação artística ou meros instrumentos de reflexão em aberto para a interpretação do espectador. Acreditamos ser possível, neste sentido, insistir teoricamente no diálogo destas e de outras linhas teóricas do cinema com uma perspectiva que trabalhe os momentos objetivo e subjetivo de condicionamento da articulação audiovisual presentes no cinema como momentos que se interpenetram, e que por sua vez devem ser contemplados no âmbito da análise fílmica como dimensões que participam ativamente na fusão de forma e conteúdo numa obra de arte cinematográfica.

Bibliografia

ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Lisboa: Edições 70, 2008.

______. Palavras e sinais. Petrópolis: Vozes, 1995.

BASTIDE, Roger . Arte e Sociedade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979.

BAZIN, André. ¿Que es el cine? Madrid: Rialp, 2006.

CASETTI, Francesco; CHIO, Federico Di. Cómo analizar un film. Barcelona, Paidós: 1998.

HEGEL, Georg W. F. Estética: o belo artístico ou o ideal. Lisboa, Guimarães Editores, 1983.

JAMESON, Fredric. As marcas do visível. Rio de Janeiro: Graal, 1995.

______. Espaço e Imagem: teorias do pós moderno e outros ensaios. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1993.

LUKACS, Georg. El film. In.______: Estética 1: cuestiones liminares de lo estético. Barcelona: Grijalbo, 1982. p. 173-207.

MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 1990.