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  Título
O filme policial no Brasil: mysterio, underworld e gangsters.
Autor
Rafael de Luna Freire
Resumo Expandido
Atento à dimensão pragmática dos gêneros - o fato de grupos diferentes interpretarem de forma distinta as mesmas convenções genéricas - que Rick Altman (1999, p. 207) adicionou a sua consagrada teoria semântico-sintática dos gêneros, Jason Mittell (2004) investiu numa abordagem cultural dos gêneros, pesquisando suas características conforme utilizadas por grupos específicos em épocas particulares. Sob esse viés, venho investigando o filme policial no Brasil (déc. 1930 a 1950) através das diferentes apropriações desse e de outros termos genéricos – e os significados a eles associados –, em nosso país, por diferentes agentes (produtores, publicistas, distribuidores, críticos, espectadores etc.), ao longo do tempo, e abarcando tanto filmes brasileiros quanto estrangeiros.

Assim, um tipo de documento importante é o questionário promovido pela revista Cinearte, em novembro de 1932, no qual a primeira pergunta era: “Que espécie de film gosta mais?”. As opções disponíveis eram "Mistério", "Melodrama", "Comédia", "História", "Drama de sexo", "Romance", "Educativo", "Far west", "Filmes cômicos", "Dramático", ou “outro gênero que não está na lista”.

O gênero “mistério” (na grafia da época, mysterio), que viria a conquistar o quinto lugar na preferência dos leitores, tinha sua origem e popularidade remontando, pelo menos, aos seriados da década de 1910. Esses eram compostos por episódios de dois rolos que consistiam na atração principal de grande parte dos programas das sessões de cinema e representaram um passo importante na transição do filme curto para narrativas mais longas. Dentre os seriados de mistério mais populares no Brasil, citamos A rapariga mysteriosa (Lucille Love, The girl of mistery [1914/ 1915br]), da Universal, e, principalmente, Os Mistérios de Nova York (Les Mystères de New-York [1914-1915/ 1916br]), da Pathé. Seguindo o procedimento inaugurado nos EUA, Os Mistérios de Nova York, estrelando Pearl White, também assumiu no Brasil o formato de “cine-folhetim”, que tinha seus capítulos publicados diariamente no jornal carioca A Noite, equivalendo ao episódio semanal exibido nos cinemas.

Em 1917, produtores brasileiros investiram no “modelo” e “etiqueta” (ALTMAN, 1999, p. 14) desse gênero com os filmes A quadrilha do esqueleto e Os mysterios do Rio de Janeiro (esse, um seriado que ficou somente no primeiro episódio). Além de “mistério”, ambos os filmes foram definidos e anunciados pela imprensa através de outros termos genéricos como “film policial”, “aventuras policiaes” e “filmes fantásticos”.

Podemos perceber a manutenção desse termo genérico ainda em outras produções brasileiras do período silencioso, como no inacabado “cine-drama policial” de Pedro Comello, realizado em Cataguases, Os mysterios de S. Matheus (1926), e na produção paulista O mysterio do dominó preto (1931), dirigida pela atriz Cleo Verberena.

Na passagem para o cinema sonoro, dois outros termos iriam se popularizar junto às platéias brasileiras, estando irremediavelmente imbricados: “o filme de underworld” na esteira do sucesso de Paixão e Sangue (Underworld [1927/ 1928br]), e “filme de gangster”.

Mas a partir de meados dos anos 1930, com o início da vertente inaugurada por G-men - Contra o império do crime (G-Men [1935]), o termo “filme policial” se consolidaria definitivamente junto aos críticos e espectadores brasileiros. O filme de mistério, em sua aliança com a "comédia amalucada" a partir de A Ceia dos Acusados (The Thin Man [1934]), viria a ser encarada como "comédia policial" ou "policial-cômico", enquanto o filme de gangster (também passando a ser encarado sob a chancela do "policial") passaria a se restringir aos filmes de linha e produções B, colaborarando para o baixo status do gênero no início da década de 1940.

Assim, no final dos anos 1930 o termo "policial" passou a abarcar definitivamente os filmes de mistério, de underworld e de gangster, redesenhando um novo mapa genérico cujas fronteiras se alargaram e se enrijeceram.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Film/genre. London: British Film Institute, 1999.

BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia clássica do cinema brasileiro. São Paulo: Annablume, 1995.

GOMES, Paulo Emílio Salles. Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. São Paulo: Perspectiva, 1974.

GONZAGA, Alice. Palácios e poeiras: 100 anos de cinemas no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Record, 1996.

MITTELL, Jason. Genre and television: from cop shows to cartoons in American culture. New York: Routledge, 2004.

MOINE, Raphaëlle. Cinema genre. Oxford: Blackwell, 2008.

NEALE Steve. Genre and Hollywood. London: Routledge, 2000.

RAMOS, José Mário Ortiz. Televisão, publicidade e cultura de massa. Petrópolis: Vozes, 1995.

PAIVA, Salvyano Cavalcanti de. O gangster no cinema. Rio de Janeiro: Editorial Andes, s.d. [1954].



PERIÓDICOS

Edições das revistas Cinearte e A Scena Muda, e dos jornais Cine-Rádio Jornal, Jornal do Exibidor e A Noite.