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  Título
A AUTORIA NO DOCUMENTÁRIO E O CASO ROUCH: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA
Autor
Sandra Straccialano Coelho
Resumo Expandido
No interior dos estudos cinematográficos, uma das questões talvez mais difíceis de abordar seja a da autoria. A própria natureza artística e ao mesmo tempo industrial da chamada sétima arte costuma constituir o principal complicador dessa questão, à medida que impossibilita tomar a obra como resultado do trabalho de um único indivíduo. Se, então, pela própria natureza dos meios de produção, o filme é resultado de um trabalho coletivo, poderíamos reduzir o problema da autoria no cinema simplesmente ao dilema de identificar quem seria o principal responsável pelo produto artístico final?

Muito provavelmente não haveria uma única resposta possível a essa questão, tendo em vista os diferentes modelos que podem ser identificados no panorama da produção cinematográfica mundial. Além disso,a própria ideia de responsabilidade sobre as obras carrega em si o desafio da definição (o autor é responsável, exatamente, sobre o quê?)

Frente a esse desafio inicial, e como estratégia que se acredita produtiva para o enfrentamento dessa questão, adotou-se, nesse trabalho, uma perspectiva teórica que permita a aproximação com a questão da autoria no cinema tomando-a como a construção histórica e social de uma determinada posição no campo da produção cinematográfica (BOURDIEU, 1996a). Nesse sentido, não cabe aqui pensar o autor no cinema partindo de uma perspectiva tributária do romantismo, que identifica na figura do autor a do gênio criador, sujeito “iluminado” que possui a liberdade inovadora da criação artística.

No dilema entre possíveis explicações internas ou exclusivamente externas às obras, a perspectiva de análise das obras culturais defendida pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu permite um olhar ampliado sobre o campo da produção artística, no qual, resumidamente, obras e autores são explicados a partir de um ponto de vista relacional.

Nesse sentido, constituir-se autor significa conquistar uma posição de autoria no interior da dinâmica de relações estabelecidas no interior do campo específico de produção. Em outras palavras, tal constituição não se explicaria pela identificação de alguma qualidade essencial de determinado indivíduo, mas sim pela consideração de sua trajetória em um determinado contexto de relações.

Essa perspectiva se mostra especialmente adequada para a análise das questões autorais no campo cinematográfico, ao partirmos da consideração necessária de que a identificação da autoria na figura do diretor do filme não é uma constante na história do cinema. A tomada dessa posição no campo da produção cinematográfica, como se sabe, foi fruto dos embates de jovens críticos franceses que redigiram seus “manifestos” nos Cahiers du Cinéma, nos anos 50-60. Sintomaticamente, a maior parte desses “jovens turcos” tornou-se, posteriormente, realizadores de filmes e, mais do que isso, figuras fundamentais do chamado “cinema de autor”.

É no interior dessa questão controversa, e a partir dessa perspectiva teórica, que o presente trabalho pretende abordar o problema da autoria no filme documentário tendo em vista os complicadores que o próprio gênero traz para essa discussão.

Sendo assim, em um primeiro momento, discute-se a questão específica da autoria no filme documentário com o objetivo de apontar os principais desafios e problemas teóricos apontados por estudiosos do tema. Em um segundo momento, que se poderia considerar como um “estudo de caso”, analisa-se a figura do antropólogo e cineasta Jean Rouch enquanto exemplo consolidado de autor, tanto no interior do gênero documentário, quanto na esfera mais ampliada do campo da produção cinematográfica. Nesse momento, o objetivo central será delinear o contexto em que, a partir da conjunção entre a trajetória do cineasta e o panorama da produção cinematográfica e documentária da época, consolida-se a figura do autor Rouch no interior do campo.
Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Lisboa: Editorial Presença, 1996a.

_______________. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus Editora, 1996b.

CinémAction: Jean Rouch ou Le ciné-plaisir. n. 81, 4º trimestre de 1996.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. 3ª.ed. Campinas: Papirus Editora, 2005.

RAMOS, Fernão P. Mas afinal... o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.

_______________ (org). Teoria Contemporânea do Cinema, vol. II: documentário e narratividade ficcional. São Paulo: Editora Senac, 2005.

La revue documentaires: L’auteur em questions. n. 14, 1º. trimestre de 1999.