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  Título
Sobre a representação do excluído no documentário brasileiro contemporâneo
Autor
Francisco Alves dos Santos Junior
Resumo Expandido
Como filmar o outro? Essa é uma questão que perpassa todo o documentário brasileiro contemporâneo. Ainda mais se esse outro for um excluído, um popular, um comum, um subalterno, um sujeito ordinário, ou um homem sem qualidades Analisando brevemente os documentários brasileiros contemporâneos que buscam representar os sujeitos em estado de exclusão, podemos perceber que boa parte deles apela para o espetáculo, para um olhar de comiseração ou mesmo de horror (RAMOS, 2008).A representação do outro envolve uma questão que se encontra no centro de qualquer estudo sobre representações: o poder. É importante, contudo, levar em consideração que as relações de forças que se estabelecem entre quem detém o poder (o diretor) e quem é filmado, envolvem uma postura ética. Para Comolli (2008), ao filmar o outro, filma-se na verdade o encontro do diretor com um mundo, com o mundo do outro - na maioria das vezes bastante diferentes entre si. Eis o problema: ao filmar o mundo do outro, e conseqüentemente a relação que se estabelece entre quem filma e quem é filmado, imprime-se as relações de forças existentes entre ambos, uma vez que é notório que a câmera é um instrumento de poder. Dessa forma, o documentário brasileiro contemporâneo, ao utilizar-se de diversos mecanismos de representação, reproduz as relações de poder contidas na vida cotidiana. Mas é importante frisar que esse poder se manifesta não só por meio das relações que são estabelecidas a partir do contato com o outro, mas através de estratégias de controle e disciplina, que governam a vida e determina a exclusão dos sujeitos ao capital. Assim sendo, a exclusão em que esses outros filmados estão imersos, deriva, de uma posição de acesso ao poder, e, nesse caso, acesso à sua auto-representação como forma de romper a invisibilidade social, econômica e política, uma vez que a exclusão não é uma modalidade apenas econômica, mas, sobretudo biopolítica, pois com o estabelecimento do Estado Moderno, o biopoder faz viver e deixa morrer. Hardt e Negri (2005) acreditam que essas zonas de exclusão (favelas e periferias) são zonas de conflitos justamente porque “o lugar da exploração é um ponto importante onde se manifestam atos de recusa e êxodo, resistência e luta” (2005. p.142). Por conseguinte, se o poder ocupa-se da vida, através de estratégias de controle e disciplina, esses sujeitos implicados em processos de exclusão, produzem uma espécie de reação, expressando dessa maneira uma potência. Essas questões podem ser percebidas em documentários como Notícias de uma Guerra Particular (1999) de João Moreira Salles e Kátia Lund, O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas (2000) de Marcelo Luna e Paulo Caldas e À margem da imagem (2003) de Evaldo Mocarzel, nos quais, tanto o diretor quanto os sujeitos subalternos “denunciam” o estado de miséria e exploração em que vivem os pobres das grandes cidades brasileiras.
Bibliografia

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e Poder: A Inocência Perdida – Cinema, Televisão, Ficção, Documentário. Minas Gerais: UFMG, 2008.

GUIMARÃES, Cesar. O Documentário e os banidos do capitalismo avançado de consumo. Revista Cinética. Rio de Janeiro. 2008 http://www.revistacinetica.com.br/cep/cesar_guimaraes.htm.

HARDT, Michael; NEGRI, Multidão: Guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005.

LINS, Consuelo, MESQUITA, Cláudia. Filmar o Real:Sobre o documentário brasileiro contemporâneo.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008

MIGLIORIN, Cezar. Igualdade Dissensual: Democracia e Biopolítica no Documentário Contemporâneo. Revista Cinética. Rio de Janeiro. 2008 http://www.revistacinetica.com.br/cep/cezar_migliorin.htm.

RAMOS, Fernão Pessoa. “O horror, o horror! Representação do popular no documentário brasileiro contemporâneo” in: RAMOS, Fernão Pessoa Mas afinal... o que é mesmo documentário?. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2008