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  Título
(Re)Considerações sobre o documentário brasileiro moderno
Autor
Laécio Ricardo de Aquino Rodrigues
Resumo Expandido
O desenvolvimento das tecnologias portáteis de registro síncrono do som e da imagem, em início dos anos de 1960, juntamente com o florescimento de uma nova ética na relação sujeito-objeto no documentário (ética que negava a autoridade do realizador e a pretensão totalizante de muitos filmes), promoveram uma ruptura neste domínio audiovisual: a chamada transição do modelo clássico para o moderno.



Nos EUA, este período foi marcado pela ascensão do Cinema Direto (CD), cujo preceito maior era a exigência de uma voz silente por parte do realizador e o uso de uma câmera em recuo, no intuito de tentar flagrar a espontaneidade do mundo em seu transcorrer. Na França, desponta o Cinema-Verdade (CV), cujo pressuposto é diferente: em vez da discrição, vislumbramos um envolvimento e interação maior do realizador com o universo abordado no filme; em síntese, é sua presença que instiga a interlocução, propiciando a fabulação do personagem – uma espécie de agenciamento que fomenta o extraordinário da tomada.



Apesar das diferenças, as duas tendências demonstram forte interesse pela "fala do outro" e o "frenesi das ruas", um frescor ausente do documentário clássico, marcado pelo rígido controle e didatismo excessivo.



Esta tendência influencia a produção ocidental; no Brasil, aporta em meados dos anos de 1960. No entanto, o contexto militante da década, marcado pela hegemonia do Cinema Novo, impede nossos realizadores de minimizar sua voz e autoridade no filme. Para muitos teóricos deste domínio, o filme que verdadeiramente inaugura uma tradição mais aberta a alteridade e que respeita as ambigüidades do "real" seria "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), de Eduardo Coutinho.



Sem desmercer os méritos desta obra, nosso objetivo, na apresentação, é destacar o pioneirismo de dois trabalhos neste ciclo de mudanças: os curtas “Di-Glauber” (1977), do cineasta baiano Glauber Rocha, e “Mato Eles?” (1982), produção dirigida pelo paranaense Sérgio Bianchi. Em nossa opinião, tais filmes já antecipam e inauguram muitos dos procedimentos que seriam aplicados com vigor no documentário de Coutinho. Um pioneirismo nem sempre reconhecido e que carece de pormenorização.
Bibliografia

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