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  Título
O maior trabalho com os sons ambientes é deixá-los em silêncio
Autor
Fernando Morais da Costa
Resumo Expandido
Em artigo recente, o canônico, para os estudos do som no cinema, Michel Chion descreve o seguinte paradoxo: a partir da popularização da reprodução sonora multicanal nas salas de cinema, difundida particularmente pela Dolby, espera-se o que o autor francês nomeou como uma “estética do preenchimento” e de grande densidade sonora. Por outro lado, a disposição dos alto-falantes por todas as paredes das salas e a divisão da reprodução sonora em diferentes canais cria também novas sensações de vazio, já que em boa parte das projeções tais alto-falantes estão dedicados à reprodução de silêncios ou de sons rarefeitos. Chion comenta, não sem bom-humor, que quando há a intenção de usar o cada vez mais refinado aparato de finalização de som e de reprodução nas salas para construir impressões de silêncio, estabelece-se algo como um “novo elemento expressivo” na condição de se assistir aos filmes: o “silêncio dos alto-falantes”, cada vez mais claro devido ao exato refinamento da fidelidade da reprodução e dos sempre decrescentes níveis de ruídos gerados pelo próprio aparato.

Não é difícil observar no cinema contemporâneo um bom número de exemplos que corroborem essa suposição. O que desejamos acrescentar é que a construção dessas impressões de silêncio vem sendo direcionada especialmente para sequências que o espectador deve entender como fundamentais para a narrativa. Falamos da rarefação proposital do que se chama, no jargão da captação e da finalização de som para cinema, som ambiente. É um fato consumado para quem trabalha com edição de som e com mixagem que uma das grandes vantagens na criação das trilhas sonoras a partir da finalização digital e da exibição multicanal traduz-se em um maior detalhamento da massa sonora que serve de ambiente a cada sequência.

Temos observado em diversos filmes, porém, e isso está de acordo com a pressuposição do teórico francês, que, desde que isso esteja justificado espacialmente, certos diálogos centrais para a construção da narrativa aparecem envoltos em ambientes extremamente silenciosos, em contraposição às recorrentes representações fartamente sonorizadas de demais situações. Em parte, a rarefação do som ambiente e a impressão de silêncio ajudam na compreensão, por parte do espectador, de que ele está frente a um momento chave da história.

À medida que determinados procedimentos de sonorização encontram-se replicados em cinematografias diversas e em projetos diferentes entre si de cinema comercial contemporâneo, podemos observar tal uso de discretas construções silenciosas em filmes díspares como a ficção-científica norte-americana Eu sou a lenda (Francis Lawrence, 2007), o europeu A fita branca (Michael Haneke, 2009), o argentino O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella, 2009).

Bibliografia

CAPELLER, Ivan. Raios e trovões: hiper-realismo e sound design no cinema contemporâneo. In: CATÁLOGO da mostra e curso O som no cinema. Rio de Janeiro: Tela Brasilis/Caixa Cultural, 2008. p. 65-70.



CHION, Michel. The silence of the loudspeakers, or why with Dolby Sound is the film that listens to us. In: SIDER et al (org). Soundscape – The School of Sound Lectures 1998 -2001. London: Wallflower, 2003. p. 150-154.