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  Título
Os Filmes de Viagem de Manoel de Oliveira
Autor
Wiliam Pianco dos Santos
Resumo Expandido
Os Filmes de Viagem de Manoel de Oliveira: Aproximações para a sua compreensão como um gênero cinematográfico



Os esforços aqui contidos dizem respeito a uma aproximação entre as teorias acerca dos gêneros da ficção no cinema e parte da obra do diretor Manoel de Oliveira. Assim, o objetivo é responder às seguintes indagações: como se poderia pensar um conjunto de seus filmes a partir dos questionamentos atribuídos aos gêneros? Seria possível identificar um discurso elaborado por Oliveira relacionado aos filmes de viagem? Qual é esse discurso? E qual é a sua relevância?

Ainda que não haja o conhecimento de uma pesquisa dedicada exclusivamente à classificação da obra de Oliveira nos moldes das teorias dos gêneros, algumas observações podem ser feitas a este respeito. Desta forma, poder-se-iam inferir temáticas recorrentes ao longo de sua carreira. São: “Amores frustrados”, “Eterno feminino” (João Bénard da Costa, 2005), “Memória”, “Angústia/Melancolia”, “Amor à terra natal” e “Estatuto histórico de Portugal”.

Logicamente que um estudo mais aprofundado se faz necessário para a comprovação do que aqui está sugerido, mas é inegável que seus filmes apresentam aspectos temáticos e formais recorrentes, os quais permitem a proposição de tais hipóteses.

Destacando-se um dos aspectos temáticos da obra em questão – a saber, o “estatuto histórico de Portugal” – a ideia deste trabalho é investigar como a possibilidade do gênero filme de viagem relacionado à História poderia estar implicada em filmes como: Non ou a vã glória de mandar (1990), Viagem ao princípio do mundo (1997), Palavra e utopia (2000), Um filme falado (2003) e Cristóvão Colombo – o enigma (2007). Cabe observar que, em ordem cronológica, o primeiro filme desse grupo faz parte daquilo que João Benárd da Costa (2005) chamou de “obras de viragem” – títulos que apontam para certa “ruptura abrupta” com relação aos filmes anteriores. Ou seja, o autor parece localizar justamente títulos que funcionam como ponto de inflexão para aqueles que buscam uma noção que extrapola a idéia de “temáticas”. Assim, tais “obras de viragem” anunciam características inovadoras e surpreendentes quando contrastadas com os trabalhos precedentes. São justamente esses títulos que parecem dar início a um determinado discurso elaborado por Oliveira, naquilo que, num contexto mais amplo, poderia ser admitido como um gênero.

Neste sentido, vale apontar a metodologia pretendida para tal investigação. Ou seja, pretende-se partir de propostas de autores dedicados ao estudo dos gêneros no cinema, utilizando-se conceitos e noções tais como: “temas e motivos” (Berry-Flint), “formas internas” e “formas externas” (Buscombe), constituição de um corpus concreto (Altman). Assim, o enunciado da presente investigação seria: pretende-se mostrar como Manoel de Oliveira cria um discurso cinematográfico pautado pela compreensão histórica de Portugal em seus filmes de viagem, nos quais as características recorrentes seriam passíveis de identificação ao longo de sua obra, apontando para aspectos relacionados à alegoria construída por tal realizador naquilo que ela implica diretamente no auxílio à compreensão do passado e do presente da nação portuguesa. Busca-se o conjunto “Filmes de viagem de Manoel de Oliveira”.

Esta proposta visa demonstrar a existência de um discurso a partir do corpus sugerido, propondo uma reflexão acerca da possibilidade de um gênero, que poderia se constituir a partir de recorrências de formas relacionadas à viagem e tensionadas a partir da história de Portugal, o que implicaria a compreensão de sua obra com sentidos específicos, ainda que os gêneros, em geral, possam estar muitas vezes associados a dimensões globais da história do cinema. Tais sentidos específicos dizem respeito à possibilidade de uma criação na qual o gênero é apropriado pelo autor na elaboração do seu discurso cinematográfico, remetendo-se dessa maneira a uma certa tradição do cinema moderno.

Bibliografia

ALTMAN, Rick. Los géneros cinematográficos. Barcelona, Buenos Aires, México: Paidos, 2000.

BERRY-FLINT, Sarah. “Genre”. In: MILLER, Toby; STAM, Robert (eds.). A companion to film theory. Oxford, UK. Blackwell Publishing, 1999.

BUSCOMBE, Edward. “A idéia de gênero no cinema americano”. In: RAMOS, Fernão (org.). Teoria contemporânea do cinema: documentário e narratividade ficcional, vol. 2. São Paulo: SENAC, 2005.

COSTA, João Bénard da. “Pedra de toque: o dito ‘eterno feminino’ na obra de Manoel de Oliveira”. In: MACHADO, Álvaro (org.). Manoel de Oliveira. São Paulo: Cosac & Naify, 2005.

PAIVA, Samuel. “Dimensões transculturais dos gêneros audiovisuais: argumentos para uma pesquisa sobre os filmes de estrada”. São Paulo: 2008.

SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. São Paulo: Cosac & Naify, 2006.

XAVIER, Ismail. “A alegoria histórica”. In: RAMOS, Fernão. Teoria contemporânea do cinema, vol. 1. São Paulo: SENAC, 2005.