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  Título
Consumo de Cinema no Brasil na era dos Multiplexes
Autor
Carla Sobrosa
Resumo Expandido
O multiplex, cinema que se compõe de 6 salas ou mais, já era uma realidade mundial quando o primeiro deles foi construído em São José dos Campos, em 1997, pela Cinemark, primeira empresa estrangeira a entrar no mercado da exibição no Brasil.

Este acontecimento marca a reconfiguração do mercado da exibição cinematográfica, que vinha em decadência de número de salas e espectadores desde fins da década de 80, e acarreta a consolidação de algumas questões que estavam em andamento: o shopping se firma como o lugar de localização dos cinemas, o que sem dúvida influencia no tipo de público, no tipo de expectativa e escolha desse público; a oferta de filmes se altera, passando a ser necessário ocupar múltiplas telas num mesmo espaço por filmes diferentes; o cinema se consolida como entretenimento da classe média e elite. Defendo a tese de que o lugar onde um filme é exibido tem uma grande influência sobre a forma como vai se dar o consumo deste filme, e acredito que este lugar pode atrair e formar um público específico, que não se confunde com o público que vai a outro lugar.

Este trabalho é uma tentativa de análise sobre o consumo de filmes nas salas de cinema no Brasil depois do surgimento do multiplex. O que acontece? Aumenta o público que vai ao cinema? Como ele se constitui? Ele é homogêneo? A que classe social ele pertence? A que faixa etária? E que cinema é esse? Onde ele se localiza? Que filmes exibe? Sendo o cinema um setor estratégico para a política cultural, procuro também abordar a política federal (e algumas estaduais) para aumento da oferta e do consumo de audiovisual, em contraposição à política de apoio à produção. Estamos produzindo para quem? E em que constitui a política de “aumento do acesso”? De que maneira a sala de cinema ainda é considerada (por quem?) o lugar por excelência da apreciação da obra audiovisual, embora grande parte da população esteja cada vez mais distante deste ambiente? Se não for para ser apreciada pelo próprio cidadão, qual o sentido de se investir em produção? O direito à fruição cultural é tão legítimo quanto o de produzir.

Como pesquisadora e servidora pública, me preocupa a idéia de que temos, talvez, poucos espectadores de cinema proporcionalmente à nossa população. Creio que é uma preocupação compartilhada por todos que vivem e pensam esta “indústria cinematográfica”, seja no setor público, no setor privado ou na academia. Será que é possível aumentar o número de espectadores? Ou esta é uma atividade cuja demanda chegou ao limite? Se for possível aumentar, como isto deve ser feito? Construindo mais salas? De que tipo? Onde? Como atrair o consumidor que já não vai ao cinema e aquele que nunca foi? E como estimular quem já vai, a ir com mais freqüência?

Acredito que não se pode estudar a produção cinematográfica sem estudar também o seu consumo. Ao olhar para as políticas culturais, ou para a produção artística de determinada época ou setor, não se pode abrir mão de buscar compreender como se organizou esta oferta, quem teve acesso ao produto. Não apenas quantitativamente. Ao falarmos sobre a produção cinematográfica de qualquer país, sabemos exatamente quem foi o diretor de determinada obra, quem a produziu, a que gênero pertence ou o quanto busca ser inovadora. Mas, ao se falar de seu público, muitas vezes o que temos é apenas um número: 3 milhões de espectadores. Dois mil espectadores. Quem é esse espectador, de onde ele vem, quais são suas motivações para consumir uma obra artística, em que condições ele acessou aquela obra. As políticas culturais devem se voltar pra esse cidadão-consumidor. A Universidade deve se voltar para a análise não apenas dos “textos” artísticos mas também de quem os leu, ou não, e porquê. Nisso, temos muito a aprender com outras áreas.

Parto de conceitos advindos dos estudos de consumo, consumo cultural e economia cultural de autores como Nestor Garcia Canclini, Pierre Bourdieu, Manuel Cuadrado, Mike Featherstone, Françoise Benhamou e outros.
Bibliografia

BARBOSA, Livia e CAMPBELL, Colin. Cultura, consumo e identidade. Rio de Janeiro, Ed. FGV, 2007.

BENHAMOU, Françoise. A economia da cultura. São Paulo, Ateliê Editorial, 2006

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2003.

_______________. A distinção. Crítica social do julgamento. São Paulo, Edusp, 2007

CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e Cidadãos. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.

______________________. Culturas Híbridas: Estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 2003

COELHO, Teixeira. Dicionário Crítico de Política Cultural. São Paulo: Iluminuras, 2004.

CUADRADO, Manuel. El consumo de servicios culturales. Madrid: ESIC, 2002.

FEATHERSTONE, Mike. Cultura de Consumo e Pós-Modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995

FLEURY, Laurent. Sociologia da Cultura e das práticas culturais. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2009

Informes e Relatórios diversos da ANCINE

Database Filme B (vários anos)