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  Título
A SIMBÓLICA DO MAL E A ALTERIDADE EM 'O HOMEM ELEFANTE' E 'DEIXA ELA ENTRAR'
Autor
Angela Maranhão Gandier
Resumo Expandido
A arte cinematográfica sempre ocupa um lugar de relevância e dispõe de um estatuto singular, propício à reflexão sobre os impasses e crises da cultura. Além disso, é próprio da obra de arte, nos vários domínios de realização e produção, investir as coisas de outros sentidos. Pela abrangência dos temas que põe em circulação, os filmes continuam atraindo o público de massa, principalmente por ser uma das mídias que mais exerce o poder de interferência na formação das subjetividades, como bem assinalou Ismail Xavier. Uma das razões deste interesse pelo cinema se deve à incorporação dos mitos e da densa rede simbólica que os constitui. Os mitos permanecem influindo no cinema, continuamente reinterpretados e investidos de novos sentidos porque põem em jogo um conjunto significativo de narrativas que indagam sobre a condição e a existência humana, para além das evidências. É o caso dos filmes de que este texto se ocupa, "O Homem Elefante" (1980), de David Linch e o recente "Deixa ela entrar" (2007), de Tomas Alfredson, que podem ser examinados sob uma perspectiva mítica, especialmente sob a simbólica do mal. Nestes filmes, o mal está intrinsecamente relacionado ao pecado, ao monstruoso, ao inumano, à criatura como presa de um mal que o investe e ameaça, cuja força provém de uma realidade inapelável para a qual não há nenhuma forma de controle. Daí deriva a regressão ao arcaico, o retorno à infância e às forças desmedidas e incontroláveis dos instintos que são temáticas provenientes da dinâmica dos grandes símbolos culturais. Por outro lado, apesar dos enredos mórbidos e violentos, o que singulariza os personagens bestializados, John Merrick (o homem-elefante) e menina vampira Eli, é que ambos apresentam um núcleo problemático comum que os aproxima: como alteridades radicais, eles revelam uma sensibilidade peculiar e buscam romper o invólucro bestial na busca do reconhecimento do outro. Esse processo de identificação entre personagens humanos e inumanos revela a aposta dos diretores Linch e Alfredson de conferir contornos mais matizados e menos clicherizantes às polarizações humano/monstruoso, bem/mal, crime/castigo, vida/morte. A condução deste jogo de identificação interpela e conduz o espectador a sentir uma decidida empatia por J. Merrick e Eli, principalmente nas sequências orientadas pela inversão de papéis em que os personagens humanos são bestializados e relevam-se capazes de atos cruéis e abjetos, ao passo que os que figuram como monstros são “humanizados”. O exame desses filmes pode ainda ser ancorado em outra dimensão relevante porque, em suas latências, é possível percebê-los como alegorias do mundo contemporâneo. Nesse sentido, a chamada condição pós-humana contrapõe a idéia de inumano para chacoalhar as certezas sobre o ideal antropocêntrico de que é próprio do homem ser unívoco, coerente e definido. A escolha de "O Homem Elefante" e "Deixa ela entrar" se deve muito ao fato de que eles fogem do padrão-clichê das produções do gênero. É necessário, portanto, um rigor maior no exame da relação entre Cinema e Imaginário e para isso é preciso recorrer às considerações de teóricos como Paul Ricoeur, Gilbert Durand, Georges Didi-Huberman, Noel Carrol, entre outros que possam contribuir para a elucidação das estruturas do imaginário e a permanência do complexo mítico nas artes de um modo geral. Seguir o itinerário traçado por esses teóricos não significa que os filmes em causa servirão de pré-texto para a afirmação de teses intrusas à análise fílmica. Por essa razão, é igualmente imprescindível consagrar espaço aos conceitos estabelecidos pelos teóricos e críticos de cinema Ismail Xavier, João Luiz Vieira, Luiz Nazário, Jacques Aumont, Serge Daney, Nick Browne, entre outros que deram relevo especial à reflexão sobre as imagens e aos constituintes específicos do discurso cinematográfico.
Bibliografia

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DANEY, Serge. The monster is afraid: the Elephant Man, David Linch. Cahiers du cinéma, n. 322, Paris, 1981.

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ECO, Umberto. História da feiúra. Rio de Janeiro: Record, 2007.

LYOTARD, Jean-François. O inumano: considerações sobre o tempo. Lisboa: Ed. Estampa, 1989.

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ROSSET, Clement. O princípio da crueldade. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

VIEIRA, João Luiz. Anatomias do visível: cinema, corpo e a máquina da ficção científica. In: NOVAES, Adauto (org.). São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.