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  Título
Recife na rota do mundo
Autor
Luciana Corrêa de Araújo
Resumo Expandido
Tanto nos naturais quanto em posados, os filmes silenciosos pernambucanos oferecem sistemáticas representações de importantes signos da modernidade que mobilizaram a vida urbana recifense na década de 1920. Esta comunicação pretende se debruçar sobre dois desses signos: o cais do porto, cujas reformas de ampliação constituíram uma das principais obras do período, e a passagem pela cidade do hidroavião Jahú, a grande sensação popular de 1927.

São dois focos que traduzem de maneira exemplar o entusiasmo – e, como não poderia deixar de ser, também a desconfiança – diante de acontecimentos que estimulam o sentimento de uma inserção cosmopolita na cena nacional e internacional, colocando Recife na rota do mundo.

Dessa “atualização com o mundo” não fica de fora o cinema, a arte do século. A expressiva produção pernambucana ao longo dos anos 1920 se mostrará atenta aos dois acontecimentos.

O cais do porto irá surgir como grande atração nos naturais "Veneza americana" (Pernambuco-Film, 1925) e "Grandezas de Pernambuco" (Olinda-Film, 1926) além de fazer parte de "A filha do advogado" (Jota Soares, 1926) e "No cenário da vida" (Luis Maranhão e Jota Soares, 1930), tramas ambientadas no meio da burguesia local. Quanto à passagem do hidroavião Jahú pelo Recife, duas produtoras apressam-se para registrar os festejos: a Vera Cruz-Film lança "As asas gloriosas do Brasil" (1927) ainda durante a presença dos aviadores na cidade e a Norte-Film exibe pouco depois o mais completo "O filme do Jahú" (1927).

Dos títulos citados, existem cópias de "Veneza americana", "Grandezas de Pernambuco" e "A filha do advogado", e um fragmento de "No cenário da vida". Dos filmes do Jahú lançados comercialmente, não se conhece hoje nenhuma cópia preservada. No entanto, existe um registro doméstico, pertencente ao acervo da Filmoteca da Prefeitura do Recife, que traz imagens da grande movimentação popular no dia da chegada do hidroavião. Como referência de filmes sobre aviadores realizados em outros estados, é possível recorrer a títulos como "A chegada dos aviadores portugueses" (Carioca Filmes, 1922), "Rumo ao Céu da Pátria" (Antonio Medeiros, 1926), "Chegada de de Pinedo a Santo Amaro" (Rossi Filme, 1927) e "Chegada do Hydro Avião Jahu ao Rio de Janeiro" (Vitoria Filme, 1927).

Seja pela análise das imagens existentes seja por meio do levantamento de informações em revistas e jornais da época, além de outras fontes bibliográficas, é possível avaliar como os filmes pernambucanos representaram esses dois momentos, procurando colocar o próprio cinema no movimento de inserção da cidade na rota do mundo. Enquanto a cidade dá mostras de se integrar ao circuito de viajantes e mercadorias de valor, estabelecendo-se como reconhecido ponto de chegadas e partidas, de trocas simbólicas e materiais, a produção cinematográfica local registra as mudanças e talvez secretamente deseje fazer parte desse percurso, alcançando, ela também, a possibilidade de ampliar suas fronteiras.

Bibliografia

ARAÚJO, Luciana Corrêa de. Aspectos do cinema em recife nos anos 1920. Relatório de Pós-Doutorado para Bolsa Fapesp, 2003.

BERNARDET, Lucilla Ribeiro. O Cinema pernambucano de 1922 a 1931: primeira

abordagem. Biblioteca ECA/USP, 1970.

CUNHA FILHO, Paulo C. (org.). Relembrando o cinema pernambucano – Dos Arquivos de Jota Soares. Recife, Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 2006.

REZENDE, Antônio Paulo. (Des) Encantos modernos – Histórias da cidade do Recife

na década de vinte. Recife, Fundarpe, 1997.

SILVA, Jaílson Pereira da. O encanto da velocidade: automóveis, aviões e outras maravilhas no Recife dos anos 20. Dissertação de Mestrado, UFPE, 2002.