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  Título
“Amor à Flor da Pele” e o conceito de melodrama asiático
Autor
Ludmila Moreira Macedo de Carvalho
Resumo Expandido
Desde a época em que começou a tornar-se popular, na Europa do início do século XIX, até reproduzir-se amplamente no cinema e nas telenovelas mundiais de hoje em dia, o melodrama sempre foi um gênero de difícil definição, uma vez que seus usos e significações vêm sofrendo inúmeras mudanças ao longo do tempo. Originalmente cunhado para se referir a peças dramáticas com acompanhamento musical, o melodrama já foi usado para caracterizar, geralmente de forma pejorativa, representações dramáticas cujo aspecto emocional é predominante, onde imperam figuras como a hipérbole e o excesso e cujos temas envolvem uma polaridade moral entre o bem e o mal.

A partir da década de 1970, sobretudo com o crescimento dos estudos culturais e a conseqüente revisão dos conceitos de alta e baixa cultura, críticos de cinema, teatro, literatura e televisão promoveram uma revitalização do gênero melodramático, que seria considerado não mais como um drama de baixo requinte artístico mas como ferramenta capaz de representar as estruturas mais profundas do pensamento e do comportamento social, especialmente sob o viés feminino.

É neste panorama de revitalização acadêmica do melodrama que se inscreve o presente trabalho. Apesar dos grande número de textos acerca do gênero melodramático sendo produzidos nos últimos anos, verifica-se que a maioria das investigações ainda permanece restrita ao contexto dos modos de representação ocidentais, deixando de fora toda uma tradição dramática dos paises de línguas asiáticas. Em seu livro seminal sobre o melodrama, Peter Brooks identifica a dramaturgia francesa do século XIX como berço deste gênero de representação, e, embora não descarte a possibilidade, tampouco faz sequer uma menção à possível aplicação do gênero melodramático às representações não-ocidentais.

Isso parece contrastar com a simples constatação de fortes traços melodramáticos no cinema e na televisão de paises tão diferentes quanto o Japão, a China e a Coréia. O pesquisador Wimal Dissanayake chama atenção para o fato de não existir nos idiomas asiáticos um termo equivalente ao que consideramos como melodrama (o mais próximo seria o wenyi pian, algo como “filme de mulher” em Mandarim). Desta forma, a palavra e o conceito ocidentais de melodrama, quando muito, são usados de maneira livre e despreocupada para caracterizar filmes, romances e séries televisivas não-ocidentais que exibem as características do gênero. Quando, por exemplo, o filme “Amor à Flor da Pele” (China/Hong Kong) de Wong Kar-wai foi lançado em 2000, foi imediatamente taxado de melodrama, sem que se tenha produzido uma investigação mais cuidadosa das implicações – tanto textuais quanto contextuais – que estariam em operação para que tal categorização fosse possível.

O objetivo deste trabalho é justamente o de promover essa investigação, que pode ser considerada importante tanto para a área de estudos dos cinemas asiáticos quanto para os estudos do melodrama. Para isso, propõe-se desenvolver uma análise comparativa do filme de Wong Kar-wai com um melodrama clássico no qual o diretor chinês teria se inspirado, “Breve Encontro” (Brief Encounter, 1945), de David Lean, verificando as similitudes e diferenças nos seus componentes melodramáticos: não somente na apresentação dos dilemas morais e conflitos ideológicos entre os personagens, mas também na natureza desses dilemas, nos modos como são construídos e representados cinematograficamente. Não se trata de esgotar o assunto nem de oferecer uma teoria definitiva do que seria o “melodrama asiático” mas, ao contrário, de iniciar um debate e promover uma aproximação mais cuidadosa entre o estudo do cinema não-ocidental e o gênero melodramático.
Bibliografia

BADLEY, Linda (ed.). Traditions in World Cinema. Edinburgo: Edinburgh University Press, 2006.

BROOKS, Peter. The Melodramatic Imagination. New Haven: Yale University press, 1976.

DISSANAYAKE, Wimal. Melodrama and Asian Cinema. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

HUPPES, Ivete. Melodrama: O gênero e sua permanência. São Paulo: Ateliê editorial, 2000.

LANDY, Marcia. Imitations of Life: A Reader on Film and Television Melodrama. Detroit: Wayne State University Press, 1990.

LU, Tonglin. Confronting Modernity in the Cinemas of Taiwan and Mainland China. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.

THOMASSEAU, Jean-Marie. Melodrama. São Paulo: Perspectiva. 2005.

XAVIER, Ismail. O Olhar e a Cena. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.