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  Título
A questão da autoria na produção documental periférica
Autor
Gustavo Souza
Resumo Expandido
Atentar para a produção audiovisual realizada nas periferias urbanas do país em oficinas de cinema e audiovisual requer, inevitavelmente, encaminhar o olhar para discursos e práticas que envolvem esta produção. Com esta orientação como norte, esta comunicação quer discutir a questão autoria no dito cinema de periferia, a partir da observação das metodologias de trabalho e dos discursos dos realizadores que alicerçam tais métodos, assim como as composições visuais, sonoras e enunciativas que tais filmes apresentam. Sabemos que o cinema de periferia não realiza apenas documentários, mas, para este momento, nossa atenção se volta para este tipo de filme. A opção por estudá-lo se dá inicialmente porque boa parte do que se produz nas oficinas são documentários. Isto ocorre pelo baixo custo de produção, já que cenários e figurinos, por exemplo, podem ficar de fora; além disso, não podemos esquecer que vivemos num país onde a televisão tem um papel decisivo para a (des)educação visual de seus telespectadores, uma vez que o aparelho de TV está presente em quase 100% dos lares brasileiros. Sendo assim, o documentário pode se apresentar como uma nova possibilidade audiovisual para quem até então está acostumado apenas com o formato televisivo. Para suscitar o debate, recorreremos ao documentário Improvise!, dirigido em 2004 por Reinaldo Cardenuto, que é “de fora” da periferia, com a ajuda do Filmagens Periféricas, núcleo de produção do bairro Cidade Tiradentes, situado a 30 km do centro de São Paulo. O documentário apresenta um significativo ponto de tensão durante as filmagens: os integrantes do Filmagens Periféricas reivindicam a divisão da direção do filme, de modo que o documentário tenha também “alguém da quebrada” na direção. O argumento é de que o grupo não pode aparecer apenas como ajudante, mas que a autoria seja dividida. Desta forma, Improvise! sugere alguns questionamentos: a autoria funciona mais como categoria simbólica que material ou como uma estratégia de demarcação de espaço e divisão de poderes, mas sem perder de vista a coletividade? Exigir a divisão da direção em um filme que está sendo feito por alguém “de fora” muda o grau de importância do grupo, que não se articula apenas internamente e a partir daí executa as suas produções, mas também é capaz de alcançar outras searas para além do seu local de origem? O reconhecimento da autoria por parte de um integrante do Filmagens Periféricas muda os rumos enunciativos e de linguagem do filme? Observar os componentes visuais e discursivos do filme e a literatura a respeito do tema torna-se, desta forma, uma possibilidade de responder a estas questões. Assim, recorrer às noções de autor como produtor (Benjamin) e autor-criador (Bakhtin) revela-se importante, pois são perspectivas que partem de contextos e objetos diferentes, mas que, no término do percurso apresentam pontos de aproximação e de complementariedade pertinentes para a discussão que se pretende aqui empreender.
Bibliografia

ARDENNE, Paul. Un Art Contextuel. Création artistique en milieu urbain, en situation, d’intervention, de participation. Paris: Flammarion, 2002.



BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética. A teoria do romance. São Paulo: Hucitec; Editora Unesp, 1988.



BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas, vol. 1. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.



BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema. São Paulo: Edusp; Brasiliense, 1994.



FOUCAULT, Michel. O que é um autor?. 6. ed. Lisboa: Vega, 2006.



FREIRE, Marcius. “A questão do autor do cinema documentário”. Significação – Revista Brasileira de Semiótica. São Paulo, nº 24, dezembro de 2005.



KRACAUER, Siegfried. O ornamento da massa. São Paulo: Cosac Naify, 2009.