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  Título
O Cangaço no Cinema Brasileiro
Autor
Marcelo Dídimo Souza Vieira
Resumo Expandido
O cangaço foi retratado no cinema brasileiro em várias épocas e de diversas formas. Desde a década de 20 a temática fascina cineastas e espectadores. Em quase um século de história, foram realizados cerca de 48 filmes sobre o assunto, nas bitolas de 16 mm e 35 mm, entre curtas, médias e longas-metragens, documentários e ficções.

Os primórdios dos filmes sobre o cangaço datam das décadas de 1920 e 1930, quando o movimento histórico ainda existia. Nessa época, a figura do cangaceiro estava começando a ser explorada pelo cinema, podendo inserir-se parcialmente na história ou ser seu protagonista. Lampião, o Rei do Cangaço (1936) é, certamente, o filme mais importante desse período e um dos mais significativos para o gênero, sendo um documento chave para a compreensão antropológica do cangaço, e um registro histórico no cinema brasileiro.

O cangaço passou a ser bastante explorado a partir da década de 1960, mas foi na década anterior que esta temática fez surgir um gênero tipicamente brasileiro. Lima Barreto realizou O Cangaceiro (1953), filme que inaugurou o gênero e delineou os principais traços que ficarão caracterizando o cangaceiro no cinema comercial. Dessa forma, os conhecidos filmes de cangaço têm seu marco inicial no filme de Lima Barreto, cuja estrutura narrativa será revisitada diversas vezes no cenário cinematográfico brasileiro e que ficou conhecido como Nordestern.

A comicidade retratou o fenômeno histórico de forma satírica, irônica, transformando em paródia seus personagens e outros filmes do gênero. Ankito, Grande Otelo e Golias protagonizaram Os Três Cangaceiros (1961); Mazzaropi realizou O Lamparina (1963); e Os Trapalhões fizeram O Cangaceiro Trapalhão (1983). A comédia erótica brasileira, mais conhecida como a fase da pornochanchada, aproveitou-se do gênero e também trabalhou o cangaço de forma debochada com pitadas de sexo. As Cangaceiras Eróticas (1974), e o inusitado Kung Fu Contra as Bonecas (1976), são duas pornochanchadas que satirizaram o tema.

Vertentes do documentário foram trabalhadas para mostrar uma fatia da realidade do fenômeno histórico. Memória do Cangaço (1963) se utiliza do Cinema Verdade para tal. O Docudrama foi a referência utilizada em O Último Dia de Lampião (1975) e A mulher no Cangaço (1976). Esses documentários têm um valor inestimável, pois procuram dar uma visão mais próxima do movimento rebelde enquanto história, na busca da veracidade dos fatos, pois o que se pretende, na verdade, não é mostrar o lado definitivo da história, mas oferecer versões dessa historia.

Glauber Rocha também enveredou pelo cangaço em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) de forma singular, abordando o tema sob o prisma do ideal revolucionário, e introduzindo em sua narrativa contextos simbólicos e alegóricos. Junte-se a esta ideologia a estética da fome e outras estéticas impressas pelo autor em seus trabalhos.

Em meados da década de 1990, o Nordeste passou a ser revisitado por cineastas interessados em retomar essa temática, que muito sucesso fez em décadas passadas. Três filmes renovaram o tema, tendo sua produção localizada no Nordeste, Corisco e Dadá (1996), Baile Perfumado (1997) e O Cangaceiro (1997) abordaram o cangaço com novos pontos de vista, e algumas releituras foram feitas, através de abordagens subjetivas ou a refilmagem de um clássico.

O gênero cangaço é trabalhado no cinema brasileiro desde o início de sua história e se faz presente em mais de sete décadas, desde os anos 1920. O cangaço passou pelas mãos de vários cineastas, nomes de importância histórica para o gênero e para o cinema brasileiro. Atores e atrizes tornaram-se ícones do cinema nacional a partir desses filmes. Personagens foram criados, inspirados em mitos do fenômeno histórico, e estão imortalizados até hoje na memória cinematográfica brasileira.

Bibliografia

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