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  Título
A incestuosa gemeidade: The Dreamers, de Bernardo Bertolucci
Autor
Debora Breder
Resumo Expandido
Diz uma versão do mito que Narciso tinha uma irmã gêmea. Ambos se assemelhavam extraordinariamente: possuíam os mesmos cabelos, usavam as mesmas roupas e iam juntos à caça. Narciso era apaixonado pela irmã. Um dia a jovem falece. Inconsolável, Narciso vai até a fonte para contemplar seu reflexo, procurando nele a imagem da irmã.

Ao transmutar a paixão de Narciso por seu próprio reflexo em paixão incestuosa pela irmã gêmea, como evocar melhor essa incestuosa gemeidade que tende, no imaginário, à anulação da diferença?

Em Histoire de Lynx (1991), um de seus últimos trabalhos consagrados à mitologia ameríndia, Lévi-Strauss observa que a noção de gemeidade é concebida nos mitos segundo dois esquemas distintos: um representado pelos gêmeos de sexos diferentes, predestinados ao incesto e que dão origem à primeira humanidade; e aquele representado pelos gêmeos de mesmo sexo. Enquanto a primeira fórmula responderia à questão de como produzir a dualidade a partir da unidade, a segunda colocaria justamente a questão inversa, isto é, como produzir a unidade a partir de seu contrário. Em resposta a esta questão os mitos ofereceriam uma série de gradações, indo da perfeita identidade entre os gêmeos à sua oposição mais extrema e irredutível. Ao considerar a mitologia ameríndia em relação à indo-européia, o autor observa que a primeira admitiria uma série de soluções intermediárias entre esses extremos: dos pares antitéticos representados pelo gêmeo benéfico e o gêmeo maléfico dos Iroqueses; pelo bom e o mau demiurgo dos mitos da Califórnia do Sul; por aquele associado à vida e o outro à morte, por exemplo, haveria toda uma gama de pares cuja desigualdade seria apenas relativa, um gêmeo sendo sensivelmente mais forte, mais esperto ou valente que o outro. Já a tradição indo-européia, ao contrário, teria privilegiado as soluções extremas, caracterizando seus gêmeos freqüentemente por uma completa identidade, o que os torna quase indistintos. Em suma, se a mitologia ameríndia recusaria a idéia de uma perfeita homogeneidade entre os gêmeos, constituindo a identidade um estado temporário, impossível de perdurar, a tradição indo-européia, ao que parece, caminharia em sentido inverso: ainda que seus mitos tenham assinalado com certa freqüência pequenas diferenças entre os gêmeos míticos, tais diferenças não inviabilizariam o ideal de uma “perfeita gemeidade”.

Considerando tais fatos, essa comunicação propõe uma reflexão sobre o modo pelo qual o ideal de uma “perfeita gemeidade” vem sendo atualizado nas narrativas ocidentais contemporâneas. Do mito ao romance e deste ao cinema, o tema parece integrar os discursos simbólicos sobre a gemeidade a partir do motivo do incesto: com efeito, se na literatura medieval os gêmeos “metafóricos” (de mesmo sexo) evitam o incesto, constituindo este a prova crucial que interroga a perfeita identidade contratada mediante a palavra empenhada num pacto, nas narrativas contemporâneas os gêmeos “consangüíneos” (de mesmo sexo e de sexos diferentes) com freqüência não escapam à sua transgressão – como indicam inúmeras obras literárias e cinematográficas (Les Metéores, de Michel Tournier; Dead Ringers, de David Cronenberg; A Zed and Two Noughts, de Peter Greenaway, entre outras).

Assim, tomando como ponto de partida o longa-metragem The Dreamers (2003), de Bernardo Bertolucci, numa perspectiva comparativa com o romance O quarto fechado (1984), de Lya Luft; e o conto Wälsungenblut (1921), de Thomas Mann – narrativas que colocam em cena três pares de gêmeos de sexos diferentes –, analisa-se a retórica incestuosa que permeia os discursos simbólicos sobre a figura dos gêmeos em nossa tradição cultural.



Bibliografia

ASTORG, B. Variations sur l’interdit majeur: littérature et inceste en Occident. Paris, Gallimard, 1990. BARRY, L. “Hymen, Hyménée! Rhétoriques de l’inceste dans la tragédie grecque”, in L’Homme, 175-176, 2005. BOHLER, D. “Fantasmes de l’indivision : la gémellité métaphorique dans la culture littéraire médiévale”, in HÉRITIER-AUGÉ & COPET-ROUGIER (org.), La parenté spirituelle. Paris, Editions des Archives contemporains, 1995. BOUCHENAFA, H. Mon amour, ma soeur. L’imaginaire de l’inceste frère-soeur dans la littérature européenne à la fin du XIX siècle. Paris, L’Harmattan, 2004. HADOT, P. “Le mythe de Narcisse et son interprétation par Plotin”, in Nouvelle revue de psychanalyse, № 13, Paris, 1976. HÉRITIER, F. Masculin/Féminin. La pensée de la différence. Paris, Éditions Odile Jacob, 1996. LÉVI-STRAUSS, C. Histoire de Lynx. Paris, Plon, 1991. SALVY, C. Jumeaux de sexe diférent. Paris, L’Harmattan, 1992.