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  Título
Recontextualizando o "cinema de bordas": afinidades e caminhos
Autor
Alfredo Luiz Paes de Oliveira Suppia
Resumo Expandido
Uma tentativa de mapeamento “topográfico” (Andrew, 2006: 25-6) da produção audiovisual brasileira, em especial voltado para as “grandes depressões”, tem sido procedida por grupo de pesquisadores interessados em filmografias locais ou regionais circulantes à margem dos aparelhos de produção, distribuição e exibição legitimados ou institucionalizados. Esse grupo denomina “cinema de bordas” seu objeto de estudo, essencialmente amorfo, diversificado e heteroglóssico. O objetivo desta comunicação é contextualizar o trabalho do grupo de pesquisa “Formas e Imagens na Comunicação Contemporânea”, vulgarmente conhecido como “o grupo das bordas”, em cotejo com proposições teóricas e historiográficas contemporâneas como o programa cognitivista ou o novo World Cinema (Nagib, 2006), por exemplo.



Pelo menos três grandes domínios teóricos dos estudos de cinema oferecem instrumental adequado ao pesquisador “de bordas”: os estudos culturais, a semiótica e o programa cognitivista. Robert Stam observa que



(...) tanto o cognitivismo como a semiologia desvalorizam as questões relativas à avaliação e à classificação, em prol da investigação das maneiras como são compreendidos os textos. Ambos os movimentos recusam uma abordagem normativa e beletrista, compartilhando um impulso democratizador desinteressado em celebrar cineastas individuais como gênios ou filmes específicos como obras-primas. Para Carroll (1998), como para Metz, toda a arte de massa é arte. (Stam, 2003: 272)



Nesse sentido, o pesquisador “de bordas” tende a formas de aproximação como a de Torben Grodal em Moving pictures: A new theory of film genres, feelings and cognition, no qual o autor “(...) dedica-se à própria fisiologia da recepção cinematográfica, aquele aspecto da experiência cinematográfica que nos leva a afirmar que um filme ‘nos dá calafrios na espinha’ ou fez nosso ‘coração disparar.’” (Stam, 2003: 269)



Vale destacar que o fenômeno aqui entendido por “cinema de bordas” não é exclusividade nacional, encontra paralelos em diversas regiões do globo e pode receber outras denominações. Um fenômeno visivelmente paralelo ao “cinema de bordas” no Brasil (não tanto em termos cronológicos, mas em função de suporte tecnológico – o vídeo – e modo de produção) é o mercado de vídeo nigeriano, conhecido por Nollywood. Françoise Balogun observa que “A Nigéria foi um dos primeiros países a desenvolver uma produção significativa de filmes em vídeo” (Balogun, 2007: 193).



O fenômeno da produção em vídeo na Nigéria tem algumas coincidências com o paralelo brasileiro. Por ser um país de dimensões continentais, várias regiões brasileiras apresentam cenário infra-estrutural e demanda por imagens locais equivalentes ao caso nigeriano. A maior diferença é que, ao contrário da Nigéria, no Brasil essa produção em vídeo não assumiu o centro do mercado audiovisual – permanece “de bordas”, embora fenômenos como o YouTube e similares ofereçam peculiaridades mais recentes ao panorama. Uma razão para a “permanência bordeira” da produção brasileira de vídeo poderia ser buscada, talvez, na eficiência da indústria brasileira de televisão.



Coincidências de mercado e modo de produção avançam para a temática dos produtos. Assim como boa parte dos vídeos nigerianos versam sobre temas religiosos, folclóricos ou simplesmente fantásticos, no Brasil o “cinema de bordas” é terreno fértil para filmes de zumbi, delírios paranormais e aventuras extraordinárias, permitindo incursões curiosas no campo das “deglutições” e “regurgitações” (“deglurregurgitações”) de gênero.
Bibliografia

ANDREW, Dudley. An atlas of world cinema. In: DENNISON, Stepanie, and LIM, Song Hwee, Remappng World Cinema: Identity, culture and politics in film. London/New York: Wallflower, 2006, pp. 19-29.

BALOGUN, Françoise. A explosão da videoeconomia: o caso da Nigéria. In: MELEIRO, A. Cinema no mundo: indústria, política e mercado (Vol. I África). 1. ed. São Paulo: Escrituras, 2007. v. 05, pp. 193-203

NAGIB, Lúcia. Towards a positive definition of World Cinema. In: DENNISON, Stepanie, and LIM, Song Hwee, Remappng World Cinema: Identity, culture and politics in film. London/New York: Wallflower, 2006, pp. 30-37.

SHOHAT, Ella e STAM, Robert. Unithinking eurocentrism: multiculturalism and the media. London/New York: Routledge, 1994. [Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. São Paulo: Cosac & Naify, 2006].

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas, Papirus, 2003.