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  Título
Evaldo Coutinho e a filosofia do cinema no Brasil
Autor
Paulo Carneiro da Cunha Filho
Resumo Expandido
Evaldo Coutinho (1911-2007) foi um filósofo discreto. Embora tenha publicado nove livros, nos quais procurou traçar uma idéia do universo, lidando com o cinema, a arquitetura e a estética, Coutinho ainda não teve a releitura que seu sistema filosófico merece, pela densidade e perspectivas de expansão. Intitulado "a ordem fisionômica", o sistema de Coutinho defende que o homem, ao nascer, cria o absoluto, que se esgota completamente com ele na hora da morte. Por temperamento (pavor de avião, timidez) e pela natureza do seu trabalho ("filosofia no Brasil não fascina ninguém, não se sabe nem o que é isso"), as reflexões de Evaldo Coutinho acabaram por se fechar num círculo pequeno de admiradores (os casos mais notórios são Benedito Nunes e Marilena Chauí). O isolamento pode ter sido ainda mais ampliado pelo fato de Coutinho ser um dos poucos filósofos brasileiros a tentar construir um sistema filosófico acabado, uma visão universal das coisas que ele classificava de "concepção nova do ser", fortemente inspirada em Heidegger. Para Evaldo Coutinho, o ser não escapa à circunstância da morte de cada pessoa. A morte é, para ele, a "hecatombe universal". A partir desse sistema apocalíptico, complexo e homogêneo, Coutinho trabalhou sobre as diversas expressões artísticas. Foi desde jovem um apaixonado pelo cinema, qie passou a acompanhae como crítico em jornais do Recife. Em A Imagem Autônoma, publicado muito tempo depois, na década de 1970, ele ainda defende o cinema mudo, por considerar que, no seu modo de entender, o cinema só poderia ser considerado de forma autônoma como mudo e preto e branco. "O cinema falado não nos dá, não nos favorece, não estimula sobre uma filosofia do cinema". Longe de se envergonhar com uma possível acusação de nostalgia ou de conservadorismo, Evaldo propõe uma longa interpretação do que chama de "princípio da matéria", a partir da qual cada arte (toda "grande arte", ele precisará), possui uma formulação exclusiva: a sonoridade na música, o volume na escultura, a cor na pintura. Mesmo o teatro não poderia ser considerado como "grande arte" justamente por não ter se constituído a partir de um conjunto material próprio. O cinema, por sua vez, teria perdido essa condição autônoma ao adotar a cor e o som. Mesmo apaixonado por Chaplin e Murnau (a quem dedicou algumas das mais sofisticadas páginas críticas escritas no Brasil), Coutinho vai fundamentar seus comentários na vã tentativa do cinema de atingir o domínio da sua matéria (imagem dinâmica em preto e branco e muda). Para ele "desde os irmãos Lumiière até 1930, nunca apareceu um filme perfeito, porque [o cinema] estava ainda em desenvolvimento". Depois, essa busca se perderá em escolhas cada vez mais híbridas do ponto de vista estético, cada vez menos autônomas. Há uma hipótese importante que ainda não foi devidamente considerada: a de que a ação crítica de Evaldo Coutinho teria um vínculo com o quadro de refluxo que a produção brasileira de cinema viveu a partir dos anos 1930, com a implantação do espetáculo sonoro. Partindo de perspectivas completamente diferentes, Evaldo Coutinho ilumina com seu pensamento crítico o estado de espírito dos realizadores brasileiros daquele contexto, o momento de desarticulação dos ciclos produtivos regionais e do estabelecimento de uma visão apocalíptica da expressão cinematográfica. Na eclosão dos dois eixos reativos (a filosofia negativa de Coutinho e a depressão da produção brasileira) existe a mesma crise vinculada ao esmagamento do potencial expressivo do cinema dos primeiros tempos.
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