/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A estrutura temporal da atualização da obra virtual de Tunga em Ão
Autor
Fernanda Lopes Torres
Resumo Expandido
Podemos localizar a estrutura temporal da obra de Tunga em Ão, instalação de 1981 onde se projeta filme (16 mm, 45’, som) realizado numa curva do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. Como se a câmera percorresse o interior do túnel sem encontrar saída e nem entrada, um loop de 45 minutos sugere estrutura circular dentro de uma montanha sem comunicação com o espaço externo. Acompanhado pela voz de Frank Sinatra a repetir o acorde-título de Night and Day, o filme provoca ligeira sensação de vertigem ao amplificar na sala de exibição o mecanismo de nossa ligação com as coisas – tema por excelência de Tunga.

O artista define Ão como a inscrição de um “toro imaginário no interior de uma rocha”. Sólido gerado pela rotação de um círculo em torno de um eixo que lhe é externo e coplanar, o toro conforma o próprio “contágio mútuo” entre as obras que caracteriza o trabalho de Tunga. Magnetismo, transmissão de energia (fios do equipamento de projeção que acompanha o perímetro da sala de Ão) ou transfigurações imprevistas em imagens literárias e foto/vídeo/cinemato(gráficas) seguem uma espécie peculiar de narrativa de unidade sempre dinâmica, pautada pela mutação contínua dos corpos.

A combinação entre materialidade e metamorfose marca seus trabalhos, que, sustentados por idas e vindas de referências das mais distintas, suscitam nossa ininterrupta aproximação a eles - jamais possuídos. Assim o artista sublinha nossa capacidade de ligação com as coisas – desejo -, movimento essencial na direção das coisas do mundo que constitui afinal a própria vida. Narrativas intrincadas construídas em diversos meios não representam o desejo, combinações de elementos saturados de conotações simbólicas não expõem objetos do desejo – elas promovem o contato com sua dinâmica. Vemos assim como a imagem em movimento no interior do túnel corresponde à temporalidade elástico do desejo, inerente à nossa própria interioridade – bem entendida em sua qualidade topológica.

Se por certo a ênfase no ininterrupto desdobramento enquanto processamento de linguagem revela a contingência contemporânea do objeto de arte, importa aqui essa dinâmica do desejo, equivalente, aliás, à nossa própria condição antropológica. A remissão contínua a coisas imprevisíveis, com suas respectivas cargas afetivas, envolve nossa capacidade de perceber simultaneamente passado, presente e futuro. Assim Tunga monta cena da estrutura temporal da experiência em permanente renovação de tensão com a expectativa. Ali na sala é intensificado o efeito de sobreposição e impregnação mútua da experiência e expectativa características do “tempo real”, vivido, sempre a exigir resoluções.

Percorremos o túnel “infinito” num movimento feito incessante pelo trabalho da edição do filme. Assim a repetição de uma mesma tomada embalada pelo hipnótico refrão de Sinatra nos conduz a um estado de expectativa. Mas, subitamente, um daqueles refrões nos atrai. Se muitos deles não têm importância, um refrão terá; e nos tirará daquele estado para o encontro extático. Moto-contínuo fílmico energizado pelos fios elétricos do aparato de projeção, Ão faz pulsar, e durar, ali, na sala de exibição, a dinâmica da perplexidade, do abrir os olhos pela primeira vez e descobrir as formas de todas as coisas do mundo.

Rolo (película), tema (curva do túnel) e “forma” (loop) do filme ou a própria sonoridade do título revelam a transmutação ininterrupta da rotação do círculo que viabiliza numerosas versões da mesma coisa, cada qual sendo diferente da outra. Permanente obra virtual que se atualiza em contornos imprevisíveis, o trabalho de Tunga implica estrutura temporal condensada na situação da projeção do filme –instalação em questão -, capaz de simular in loco a promoção do revigoramento de nossa existência no presente da obra, característico de toda experiência estética.

Bibliografia

BOHRER, Karl-Heinz. Suddenness: on the moment of aesthetic appearance. New York: Columbia University Press, 1994.

BRITO, Ronaldo. “Chumbo e Seda”. In Experiência Crítica. São Paulo, Cosac & Naify, 2005.

DUARTE, Paulo Sérgio. “Algumas notas para a revisão da Vênus de Botticelli depois do sonho da cartomante fragmentando a concha e transformando o sopro do vento em luz através do trabalho de Tunga, apesar do pudor da imagem e da hipocrisia da corte usando o móbile como bússola”. Núcleo de Arte Contemporânea PRAC/UFPb (acordo Funarte/UFPb), 1979.

KAFKA, Franz. Journal Intime. Paris: Grasset, 1945.

KOSELLECK, Reinhart. Passado Futuro: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro, Contraponto/Editora PUC-Rio, 2006.

ROLNIK, Suely. “Instaurações de Mundos”. In: Tunga. Tunga: 1977-1997. Curadoria Carlos Basualdo. Miami : Museum of Contemporary Art, 1998, p. 115-136.

TUNGA. Barroco de Lírios. São Paulo, Cosac & Naify, 1997.