/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Sons d’O Silêncio: Considerações sobre a narrativa fonocinematográfica
Autor
Maurício de Medeiros Caleiro
Resumo Expandido
Por paradoxal que possa parecer, um filme intitulado "O Silêncio" oferece um dos mais ricos repertórios de estratagemas sonoros a suscitar questionamentos acerca do status do som no cinema e de sua relação com a imagem fílmica. O artigo em tela estressa precisamente as nuances de tal emprego do som, com particular atenção a como o diretor Mohsen Makhmalbaf conduz a atenção do público à narrativa e manipula a identificação com o protagonista através da forma original como emprega estratégias de “ponto-de-audição” - termo cunhado por Michel Chion como forma de se referir ao equivalente sonoro à perspectiva subjetiva proporcionada pelo ponto de vista ótico (P.O.V, ou point of view, em inglês).



Como Kharshid (Tahmineh Normatova), o personagem mirim que protagoniza essa co-produção entre França, Irã e Tajiquistão, é cego, a eventual coincidência entre a perspectiva do protagonista e a visão do espectador – comumente demandada para fins de identificação espectatorial – é reiteradamente substituída pela adoção de recursos sonoros, os quais, por sua vez, ensejam a adoção de peculiares abordagens visuais. Em decorrência de tal dinâmica, a relação entre espaço fílmico e evolução narrativa temporal produz, em O Silêncio, uma configuração não usual, distinta, que oferece uma oportunidade propícia a uma (rara) aplicação do conceito bakhtiniano de cronotopia, a um tempo, a uma produção cinematográfica não ocidental e no contexto de um modelo analítico que privilegia o papel do som no interior da narrativa fílmica.



No entanto, como será demonstrado no artigo em questão, a percepção acerca da superlativa especifidade sonora de O Silêncio encontra-se virtualmente ausente das resenhas sobre o filme publicadas nas principais revistas de cinema dos Estados Unidos, Inglaterra, França e Brasil – na verdade, a ênfase, em parte considerável de tal corpus crítico, recai, no mais das vezes, sobre as qualidades visuais do filme, notadamente seus enquadramentos e padrões cromáticos. Pelo modo quase unânime como se dá em relação ao filme e por ocorrer, de forma recorrente e análoga, na prática da análise crítica cinematográfica em geral, essa desatenção para com a conformação fonoaudiológica da obra – da qual só as músicas, diegéticas ou na trilha sonora, compõem eventual exceção, recebendo, por vezes, comentários elogiosos - sugere a “naturalização” de um modo de apreender e analisar filmes condicionado a uma não explícita mas operante hierarquia, em que a imagem como que se sobrepõe ao som, recebendo uma atenção desproporcionalmente maior do que aquela a este dispensada.



A contraposição da parca atenção analítica dispensada ao som de "O Silêncio" por parte da crítica dita especializada em relação à riqueza de estratégias sonoras do filme - realçada, por sua vez, no artigo em questão, pela análise específica de seus resultados narrativos segundo os enfoques e frames teóricos acima referenciados -, serve de base à argumentação em prol de uma revisão axiológica das relações entre som e imagem no âmbito da análise fílmica.



Embora evitando uma concepção estanque da dinâmica som-imagem, o artigo, a partir de uma clivagem de veios teóricos da semiologia e do pós-modernismo que dialogam com a Teoria do Cinema (notadamente Barthes, Deleuze e Kristeva), e traçando analogias específicas com os processos propostos por Derrida em Of Grammatology no tocante à fala e à escrita, discute a excessiva centralidade da imagem como objeto da análise fílmica, esboçando possibilidades de promoção e desenvolvimento de modelos de análise fílmica que superem o meramente cinematográfico e se tornem caudatários do fonocinematográfico. O termo, já dicionarizado em português, parece-nos sugerir uma sintonia (não necessariamente sincrônica), uma inter-relação e um compartilhamento de relevância axiológica entre som e imagem mais consoantes aos filmes - e portanto à sua análise -, tais como há tempos produzidos.
Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail M. "Forms of Time and of the Chronotope in the Novel." In: The Dialogic Imagination – Four Essays. Austin: University of Texas Press, 1981, p. 11-161.

CHION, Michel. Un art sonore, le cinema. Paris: Cahiers du Cinéma, 2003.

CHION, Michel. Voice in cinema. New York: Columbia University Press, 1999.

Culler, Jonathan. On Deconstruction: Theory and Criticism after Structuralism. Nova Iorque: Cornell, 1982.

DERRIDA, Jacques. Of Grammatology. Baltimore: John Hopkins, 1976.

DOANE, Mary Ann. “Ideology ant the practice on sound editing remixing”. In: WEISS, Elisabeth e BELTON, John. Film Sound – Theory and Practice. Nova Iorque: Columbia, 1985, p. 54-62.

RIDGEON, LLoyd V. J. Makhmalbaf’s broken mirror: The socio-political significance of modern Iranian cinema. Durham: U. of Durham, 2000.

STAM, Robert. Subversive Pleasures: Bakhtin, Cultural Criticism, and Film. Baltimore and London: John Hopkins, 1989.