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  Título
A Poética na Cinematografia
Autor
Silvia Helena Cardoso
Resumo Expandido
A Poética Visual é um elemento essencial em qualquer trabalho artístico. Independente do Cinema se situar em diferentes áreas – está tanto para Comunicação, quanto para as Ciências Sociais, está tanto para as Artes, quanto para a Literatura – e, sob muitos aspectos, é tratado como um trabalho meramente industrial; a obra cinematográfica apresenta um processo criativo que pode partir de um roteiro e/ou de um argumento, ainda distante do diretor, muitas vezes o próprio diretor é o proponente das narrativas audiovisuais, que é desenvolvido em cada etapa do processo fílmico e por incluir vários profissionais, a equipe acaba por interferir nesta obra que é essencialmente coletiva. Cecília de Almeida Salles, estudiosa do Processo Criativo e da Crítica Genética, analisa o conceito de Rede de Criação. Todos os elementos, desde os primeiros esboços, os primeiros rabiscos, as primeiras frases, podem sofrer alterações desde que estejam num processo de troca entre artistas/autores de diferentes áreas de atuação. É nesta direção que procuro estudar a proximidade da criação em Cinema com a das Artes Visuais, reforçando a idéia de que todos os documentos produzidos no processo de criação – de construção da obra – são essenciais para entender a poética visual intrínseca no produto audiovisual.

Os filmes abaixo são analisados como potenciais exemplos da poética visual:

O Triunfo da Vontade (1935) de Leni Riefenstahl - a artista assinou não só a direção, como também a fotografia, a produção e a montagem. Além de ser co-roteirista. Apenas a música e os efeitos especiais são de outros profissionais.

O documento registra de forma muito poética a ascensão de Adolf Hitler e do Partido Nazista Alemão. Tal documento poderia ter sido destruído, por razões óbvias, mas a riqueza imagética revela forte conhecimento da linguagem fotográfica, especialmente, se considerarmos o desenvolvimento da imagem fotográfica nos anos 20. O filme inicia-se com o avião nas nuvens, como uma metáfora ao Fuhrer que chega do céu, como um ser enviado de Deus para libertar o povo alemão da miséria e opressão. Independente da propaganda política demagógica, o filme revela uma poética visual intrínseca à formação de Riefestahl, bem como uma aliança entre a família artística e o conteúdo trabalhado simultaneamente. O dia e a noite, a luz natural e a artificial, revelam um roteiro pouco técnico e mais entusiasta da mensagem em questão: a valorização do povo alemão. O discurso de Hitler é na montagem cortado por retratos em movimentos onde se reforçam a idéia de novo, de juventude, de ação. A suástica é close em vários momentos, bem como o gesto de saudação próprio do nazismo.

Gato Preto, Gato Branco (1998) de Emir Kusturica – o cineasta divide a criação poética com os profissionais que fazem parte de sua equipe. O filme é genuinamente uma criação coletiva, apesar de Kusturica assinar a direção.

O filme conta a história de um casamento cigano em alguma parte dos Bálcãs. Apenas o Rio Danúbio é citado, como uma referência ao sonho europeu. Os atores profissionais são misturados aos não-atores profissionais – ciganos comuns -, o que acaba por reforçar certo realismo à obra. O roteiro é escrito a partir de uma pesquisa sobre um músico que morrera e também sobre um mafioso, a partir daí nascem outras histórias que apresentam Gato Preto, Gato Branco. Os detalhes que compõem o roteiro são registrados através de ângulos fotográficos que reforçam a narrativa audiovisual e o estilo barroco do cineasta, e quiçá do povo cigano.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2002) de Jean-Pierre Jeunet – o cineasta apresenta nos Extras do DVD a sessão “O Caderno de Rascunhos” com fotografias do filme, à luz dos cadernos de artistas. O filme traz muitas referências ao universo da linguagem fotográfica, como por exemplo, na Viagem do Gnomo onde o próprio gnomo aparece em diferentes lugares emblemáticos através de registros polaroids. A fábula também é reforçada através da saturação de cores.
Bibliografia

CHARNEY, Leo. O Cinema e a Invenção da Vida Moderna. São Paulo: Cosac e Naif, 2004.

MARTIN, Marcel. A linguagem Cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 2002.

SALLES, Cecília de Almeira. Redes de Criação. Construção da obra de arte. Vinhedo/SP: Editora Horizonte, 2006.

SILVEIRA, Paulo. Da ternura à injúria na construção do livro de artista. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.

XAVIER, Ismail. O Discurso Cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.