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  Título
Repensando o ensino de cinema
Autor
Marilia da Silva Franco
Resumo Expandido
Tendo o cinema como base e as novas mídias como perspectiva, é necessário repensar fundamentos, métodos e estratégias da formação para a produção audiovisual.Levando em conta que isso envolve as dificuldades e delicadezas inerentes à pretensão de formar artistas. Assim fica cada vez mais impossível fechar o foco sobre a formação de profissionais para trabalhar na grande mídia.

A perspectiva pode ser voltar-se, então, para o desenvolvimento da expressão audiovisual baseada nas aptidões pessoais e na base cultural audiovisual sobre as quais essas aptidões serão estimuladas.A partir disso é possível estruturar várias metodologias de formação que respondam às mais diversas demandas.

Lembremo-nos de algumas delas: cursos de nível superior e médio de formação de profissionais, cursos de licenciatura para formar formadores, cursos de orientação para o uso do audiovisual nas mais variadas pedagogias - ensinos primário, secundário e superior, aperfeiçoamento profissional, inclusões sociais e/ou culturais, formação de gestores culturais, formação de profissionais de interface entre demandas culturais, gerenciais e tecnológicas, etc.

Num panorama tão diverso de necessidades e numa base mutante de tecnologias e mídias, pensar a formação hoje quase nos obriga a centrar o foco no sujeito a ser preparado tendo como norte suas potencialidades expressivas que sempre virão imersas no universo audiovisual no qual foi formado.

Mas quais serão, então, os fundamentos sobre os quais estruturar novos métodos e estratégias para tantas pedagogias?

Se o foco é o sujeito e suas aptidões para a expressão audiovisual é preciso desenvolver uma pedagogia da observação da personalidade expressiva do indivíduo a ser formado. Os fundamentos do desenvolvimento cognitivo de Piaget, Vigotsky e Gardner são os melhores guias para essa tarefa, não esquecendo que a Gestalt (aplicada sobre a arte por Arnheim) orienta a percepção das relações entre o funcionamento dos sentidos e sua aplicabilidade para as expressões estéticas.

Tudo isso, no entanto, deve ser observado dentro dos contextos culturais em que o sujeito foi formado. Já pude observar, em exercícios de sala de aula, alguns paradigmas audiovisuais – antes formados pelo cinema, em seguida pela TV e agora já em contextos digitais - que marcaram distintas gerações e que servem de base para a construção de estilos expressivos. Na maioria das vezes essas relações não são reconhecidas de forma consciente pelos artistas. A leitura de Mentes que Criam, de H. Gardner , ilumina sobremaneira essas questões.

Esses sujeitos expressivos, no entanto, terão que se desenvolver dentro de parâmetros menos livres que aqueles estritamente estéticos. Terão que dar respostas artisticamente satisfatórias para demandas de comunicação, para limitações e transmutações tecnológicas e principalmente, terão que saber manejar as potencialidades da linguagem audiovisual com seus mais de cem anos de tradições e transgressões.

Neste ponto entra o cinema como base e a formação consistente em história, teoria e linguagem evidencia-se como indispensável.

Esse conhecimento de base vai encaminhar para um certo tipo de “autorreconhecimento” que ajudará os aprendizes/artistas a orientar suas escolhas cognitivo-expressivas no caminho para as formações específicas em imagem, som, narrativas, administração,teoria/pesquisa/crítica, gestão cultural, desenvolvimento tecnológico e docência.

Cada uma dessas áreas, tão diversas e complexas em particular e tão indispensavelmente articuladas para gerar os produtos audiovisuais, precisam estar presentes na (in)formação geral de profissionais para o audiovisual.

Caracterizá-las como campos cognitivos específicos, com seus fundamentos expressivos e sua diversidade de funções é um grande desafio que se oferece ao desenvolvimento de uma nova pedagogia para a formação para o audiovisual.

Esta conversa pretende provocar o debate e a busca dos caminhos que ajudem a desenhar este modelo que proponho.
Bibliografia

ARNHEIM, R. Arte e percepção visual. S.Paulo, Pioneira, 1991.

BARBERO, J. Martin e Germán Rey. Os exercícios do ver. S.Paulo, SENAC, 2001.

BERGALA, Alain. A hipótese-cinema. Pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. RJaneiro: Booklink; CINEAD-LISE-FE/UFRJ:2008.

FRANCO, Marília. Você sabe o que foi o INCE? In SETTON, M. Graça J (og.) A cultura da mídia na escola. Ensaios sobre cinema e educação. S. Paulo, Annablume, 2005

GARDNER, Howard. Estruturas da mente. A teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre, Artes Médicas. 1996.

GARDNER, Howard. Mentes que criam. P.Alegre, Artes Médicas Sul, 1996

MORIN, Edgar. Cinema ou o homem imaginário. Lisboa, Moraes Editores, 1970. Cap. IV – A alma do cinema .

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. S.Paulo, Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2002

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vigotsky. S.Paulo, Scipione, 1993

PIAGET, Jean . Seis estudos de psicologia. Rio, Forense, 1969