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  Título
Videopoéticas Contemporâneas
Autor
Evelyse Lins Horn
Resumo Expandido
Este artigo tem por objetivo falar sobre o vídeo como experiência audiovisual e a sua relação com a arte contemporânea. O vídeo aparece como uma forma de imagem imaterial, quase etérea. Para Philippe Dubois talvez não devamos ver, e sim perceber a imagem videográfica, ou seja, considerá-la como um pensamento ou um modo de pensar. Um estado, não um objeto. O vídeo como estado-imagem.

Videoarte é apenas um termo genérico para elencar a diversidade de experiências com vídeo e suas especificidades. O vídeo tornou-se o instrumento de expressão quase específico de uma análise, de uma interrogação, de uma investigação pessoal. Essa necessidade de busca e experimentação houve não só no campo artístico, mas também no campo cinematográfico, havendo um questionamento dos cineastas em torno e no coração de sua arte. O vídeo como lugar de um metadiscurso sobre o cinema. Sem dúvida, foi Jean-Luc Godard quem mais desenvolveu esse tipo de trabalho, inclusive incorporando conceitos relativos à videoinstalação e a videoperformance em seus trabalhos.

Jacques Ranciére encontra em Godard, uma mídia híbrida que substitui e redime, através de uma “pseudo metamorfose”, o vazio da pureza da vanguarda incorporado à fotografia (RANCIÉRE 2007, 41). O trabalho de Godard é, inteiramente, produto de técnicas mistas e, portanto, se engaja em processos metafóricos que transcendem as fronteiras artísticas e rejeitam a especificidade dos materiais. Embora trabalhe com construção de enredos a partir da tradição narrativa, Godard também cria presenças visíveis de uma variedade de elementos visuais e sonoros e até de completo silêncio, que se unem numa combinação de um novo tipo de construção sintática, e são tão significativos quanto os sinais de linguagem.

Godard também foi analisado por Philippe Dubois. Segundo Dubois, podemos falar de uma bipolarização da produção de Godard. De um lado temos os filmes, grandes clássicos, de outro, e em paralelo, os vídeos tão numerosos quanto os filmes. Dubois nos fala de um Godard que trabalha usando todas as posturas da palavra onipresente, assim como o seu avesso quando trabalha o silêncio ou a gagueira. Silêncio que Godard usa como palavra plena em seu vídeo Nous trois, com nenhum som durante 52 minutos. Assim como o silêncio, há a linguagem flutuante, incerta e hesitante. Godard nada apaga dos vazios, tentativas, erros, de si como dos outros, tudo faz parte da performance. Uma espécie de gagueira fundamental, como em seus apartamentos inacabados (bem percebeu Deleuze), que é exatamente a videolinguagem.

A obra de Godard é um exemplo ressignificação e se tornou um processo, que precisa ser vivenciado e passa a existir como uma forma aberta, constitutiva da construção de sentidos entre o tempo. Godard lança uma imagem pensamento, como Dubois já disse anteriormente, imagem essa que pensa à medida que nos convoca a pensar e que é portadora de um pensamento, à medida que diz algo do que ela está representando. A imagem vincula os pensamentos do artista que as produziu e das pessoas que viram essas imagens, ela nos faz pensar à medida que assume novas poéticas e, precisa de uma nova partilha do sensível para ser percebida.

Para refletir sobre o fazer artístico inserido na contemporaneidade e sua relação com o vídeo, que vimos como exemplo na obra de Godard, discutida por vários autores, é preciso entender que esse processo faz parte de uma partilha do sensível, termo cunhado por Ranciére. Para ele a partilha refere-se às leis que governam a ordem do sensível e que encaixa nossos lugares e formas de participação num mundo comum. Ao pensar nos trabalhos de arte e vídeo, que chamarei aqui de videopoéticas, vemos uma tentativa de desconstrução da partilha do sensível vigente. A imagem passa a ser privilegiada e suplanta a fala. O pensar do artista se torna linguagem e retoma a reflexão de Dubois do vídeo ser um pensamento e nos fazer pensar. Devemos pensar na videopoética como uma pesquisa expressiva e de experimentação em arte.
Bibliografia

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BAUMAN, Zygmunt. Liquid arts. Em Theory Culture Society, 2007; 24; 117-126.

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DUBOIS, Philippe. Cinema, Vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

GOMBRICH, Ernst H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

MACHADO, Arlindo. Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro. São Paulo: Iluminuras, 2007.

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RANCIÉRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: 34, 2005.

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