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  Título
O tempo do olhar: documentários de observação com imagens de arquivo
Autor
Adriana Maria Cursino de Menezes
Resumo Expandido
Como olhamos uma imagem? Hoje todas as convenções que definiam no século XIX o realismo estão embaçadas pela aderência da imagem à realidade; pela nossa visão do mundo que passa pela representação, pela imagem que criamos dele e de nós mesmos. Além disto, a intervenção digital, o armazenamento e a transmissão simultânea de imagens; nos sugere um modo interconectado de pensar numa dialética das imagens, como parte de processos abertos, influenciáveis, flexíveis e passíveis de distintas conotações. É comum hoje ter a impressão de estar perdendo algo de muito bom em algum lugar, seja um filme, uma informação, uma rede de relacionamento na internet, enfim; se não paramos para observar e “aceitar” uma seleção, um recorte de coisas que fazemos para usufruir delas no presente, nosso olhar (e nosso tempo) acaba sendo roubado por tudo que pode significar nada. Nossa cultura dá importância demasiada ao presente, deixando-o como se fosse o único referente, como se a imagem grudasse no real e nos fosse empurrada aos montes, resultando diariamente em excesso de narrativas . Esse fluxo gera uma distração e um “consumo não consciente” do que olhamos. Não vemos. Quando escolhemos o que olhar, vemos – e criamos uma autoria sobre o nosso tempo - as coisas assumem outro sentido. Assim ocorre com os documentários de observação. Este tipo de filme constrói um “terreno” que potencializa o olhar, produz uma forma diferente de estar diante das imagens. Essa posição é acompanhada de uma crítica às narrativas mais convencionais que tendem a dirigir o espectador. Ordenar uma sequência de imagens e fabricar um acontecimento é diferente de ordenar uma sequência de imagens para que o acontecimento seja fabricado pelo espectador. No segundo caso, cria-se um espaço à “potência de ver”.

Os filmes de observação nos fazem ver o nosso “ver”. Produzem um distanciamento que faz com que as coisas pareçam surpreendentes e incomuns. Os filmes de observação impõem outro olhar, “resgatam” o espectador disponível de um fluxo abundante de imagens e informações, de um excesso que ofusca o olhar; cria um espaço para que o ver se transforme em saber.

Vemos no filme "En construcción" (2001, Espanha) de Jose Luis Guerin a história da transformação que um bairro popular de Barcelona (Espanha) - o antigo bairro Chino, hoje Raval - sofre quando obras são executadas para a construção de um condomínio. Imagens de arquivo abrem "En construcción". São imagens deste bairro nos anos 1950 e 1960. Observamos tais imagens para em seguida ver o lugar nos dias de hoje: os idosos, imigrantes, crianças brincando nas obras. Tais imagens produzem uma intensa conexão entre o passado, o presente e o futuro, como uma continuidade da manutenção dos espaços, do status social, das dificuldades de inserção no mercado, tal como ouvimos em alguns diálogos no filme. O tempo do olhar é primordial no espaço-tempo deste filme. Um filme contemplativo, sem entrevistas, filmado na sua maioria com câmeras fixas.

Destruição e construção. Esta articulação propõe uma dialética da paisagem, humana e urbana e uma suposta fragilidade da arquitetura atual – como edificações recentes são demolidas com o propósito de erguer outras novas no lugar – frente a edifícios tão antigos que seguem assistindo às sucessivas demolições e construções. A nova ordem implica numa seleção do que deve desaparecer e do que deve permanecer.

Em suma, os filmes de observação tratam das imagens, de modo a encaminhar ao espectador o trabalho de lhes dar sentido. Sugerem que o espectador tome posição diante das imagens. A montagem nestes filmes – como inventário, ou colagem - sugere um paradoxo, uma dialética, ao contrário de uma interpretação. O cinema de observação que usa imagens de arquivo intensifica ainda mais o olhar político e social, o “olhar com conseqüências” (com posição, com ponto de vista, com atenção) na medida em que articula a experiência vivida, a lembrança e a elaboração de situações em narrativas.

Bibliografia

Didi-Huberman, George. “Cuando las imágenes toman posición”. Madrid: A. Machado Libros, 2008.

Kracauer, Siegfried. “O ornamento da massa”. São Paulo: CosacNaify, 2009.

Ledo, Margarita. “Documentalismo Fotográfico”. Madrid: Cátedra, 1998.

Ortega, Luisa Maria e Noemí Garcia. “Cine Directo – reflexiones em torno a um concepto”. Barcelona: T&B Editores, 2008.

Weinrichter, Antonio. "Metraje encontrado:la apropriación en el cine documental y experimental".Pamplona: Fondo de Publicaciones del Gobierno de Navarra, 2009.