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  Título
Baseado em fatos reais: uma análise comparativa do realismo em A troca e Na natureza selvagem
Autor
Sílvia de Paiva
Resumo Expandido
Essa proposta nasceu do desejo de explorarmos uma questão surgida durante o mestrado. Na época, a tentativa de particularizar o realismo de alguns filmes iranianos nos levou às obras baseadas em fatos reais. O que une esses filmes aos filmes iranianos investigados é a reencenação de histórias acontecidas no mundo "real". Durante o mestrado, não foi possível nos aprofundarmos nos filmes baseados em fatos reais. Contudo, ficou a sensação de que a análise deles traria contribuições para o estudo dos realismos no cinema. Essa impressão se intensificou quando notamos que, nos últimos anos, um número expressivo de filmes dessa modalidade tem ocupado as telas do cinema. Entre eles, temos: Edith Piaf, Operação Valquíria, Milk, Na natureza selvagem, A duquesa, A troca, Um sonho possível, Invictus, Jean Charles e Chico Xavier.



Em geral, os filmes baseados em fatos reais ou retratam momentos históricos marcantes ou traçam a biografia de personalidades ou mostram como pessoas comuns superaram situações de extrema dificuldade... Contudo, essa tendência não é nova. O filme mais antigo a reconstruir um episódio verídico de que temos notícias é The lady of dugout (WS Van Dyke, 1918) que conta os eventos que tornaram os irmãos Jennings bandidos famosos nos Estados Unidos. Mas o que particularizaria os filmes baseados em fatos reais no universo realista?



Via de regra, as obras realistas constrõem um duplo do mundo que se assemelha ao mundo tal como o concebemos e o experenciamos. Seus temas, mesmo quando inventados, abordam situações que poderiam acontecer no mundo em que vivemos. Suas narrativas conservam princípios de causalidade e de não contradição próprios do mundo exterior ao filme. As obras realistas criam “uma ilusão de mundo que reconhecemos como real” (FRUS apud JAGUARIBE, 2007: 28). Isso tem um reflexo direto na experiência do espectador junto a essas obras. Como ressalta Jean-Louis Comolli, o realismo garante “que a experiência vivida pelo espectador no espetáculo (durante a projeção de um filme, por exemplo) não é estranha ou impertinente à sua experiência da vida (como o seria uma excursão em scenic railways, por exemplo)” (COMOLLI, 2008: 218).



Acreditamos que as obras baseadas em fatos reais constituem um tipo particular de realismo na medida em que a sua relação com o real vai além da semelhança, pois esse tipo filme não apenas relata uma história que poderia ter acontecido no mundo, mas uma que efetivamente aconteceu. O público é prontamente informado desse fato através de letreiros, explicitando que a história narrada na tela possui um lastro com o mundo exterior ao filme. Por serem baseado em fatos reais, esses filmes ganham uma certa liberdade em relação ao evento ao qual se reportam. Sendo ficcionais, eles comportam uma certa reinvenção, desde que os principais lances do evento real não sejam alterados e que não haja a criação de personagens que não existiram na história original.



Não faz parte dos objetivos desse artigo discutir se o filme foi ou não fiel ao episódio real. O que procuramos neste trabalho é levantar algumas peculiaridades do realismo desses filmes. Para tanto, elegemos A troca (Clint Eastwood, 2008) e Na natureza selvagem (Sean Pen, 2008). Analisaremos a estrutura interna desses filmes nos valendo da análise narratológica a fim de entender as estratégias narrativas utilizadas neles para reconstruir histórias da vida, a visão que eles criam do acontecido e os pactos estabelecidos com o espectador. A escolha dos filmes se deu em função de os fatos narrados neles serem passíveis de acontecer na vida de grande parte dos espectadores. Nesse sentido, tais filmes fogem das temáticas que acreditamos serem as mais recorrentes nesse tipo de filme, a saber: a abordagem de fatos históricos ou a narração da biografia de uma personalidade. Nos filmes em questão, há apenas pessoas comuns confrontadas por situações difíceis, nas quais o tradicional final feliz não comparece.

Bibliografia

AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Análisis del film. Barcelona: Paidós, 2002.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. Belo Horizonte : Editora UFMG, 2008.

JAGUARIBE, Beatriz. O choque do real. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

JULLIER, Laurent; MARIE, Michel. Lendo imagens do cinema. São Paulo: Senac, 2009.

LETE, Anne Goliot; VANOYE, Francis. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Papirus, 1994.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico. São Paulo: Paz e Terra, 2005.