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  Título
Os 4 Cavaleiros do Apocalipse dos estudos cinematográficos brasileiros
Autor
Fernão Pessoa Ramos
Resumo Expandido
São eles, os 4 Cavaleiros da sombra nos estudos de cinema no Brasil:

1) 'O Evolucionismo Tecnológico' - Possui uma visão de Cinema marcada pela crença na relação intrínseca com a tecnologia. Centra sua abordagem na questão tecnológica, sobre-determinando a forma narrativa. Na mesma medida que a sociedade de mercado é marcada pela necessidade da renovação constante dos bens de consumo, a abordagem tecnicista atrela o estilo do cinema a uma infindável sucessão de modas tecnológicas. O cinema possui, efetivamente, uma mediação técnica, seja na sua captação, seja na sua articulação narrativa, seja na sua exibição. Neste sentido, o campo para o evolucionismo tecnológico é amplo. Com o advento dos meios digitais a tendência adquire dimensão dilatada. Vê todo o campo da arte cinematográfica reduzido ao suceder da última tecnologia. Digo evolutivo, pois este recorte acredita na sucessão linear das formas, que iriam se alternando na direção da realização do progresso na última novidade técnica, razão de seu ser histórico. O fetiche do novo ainda é sobredeterminado pela valoração moderna da idéia de vanguarda.

2) 'A Hipertrofia Metodológica' - Caracteriza-se por vincular a reflexão sobre cinema a grandes campos teóricos. Em geral, atém-se a amplas pinceladas de teorias que estão à mão, deixando ao largo aquele que deveria ser seu objeto primeiro: o filme e a tradição cinematográfica. Também a teoria do cinema permanece ao largo. A 'grande teoria', para utilizarmos um termo da escola americana não culturalista, serve para abrir todas as portas. A grade analítica se atém à reprodução de lugares comuns, conceitos chaves de amplos arcabouços ideológicos, sem que se consiga fazer a ponte sobre a realidade histórica ou autoral do cinema. Em geral, o objeto é muito pequeno para a carga e o autor satisfaz-se em percorrer horizontalmente a teoria. A hipertrofia metodológica casa bem com a cultura livresca, ou com a tradição bacharelesca, que contamina parcela importante da vida intelectual brasileira. Acredita-se que uma boa tese, ou um bom livro, deva necessariamente dedicar-se a uma discussão conceitual ampla, em geral bem além (e, portanto, aquém) do que dá ensejo o objeto abordado.

3) 'A Fobia Diacrônica' - Refere-se à dificuldade de trabalho com a história do cinema e com a dimensão autoral daí decorrente. Relaciona-se diretamente com a hipertrofia metodológica. A discussão conceitual, fechada em si, toma o campo da análise, sem valorizar os exemplos históricos e o embate com a dimensão fílmica propriamente. Tem como conseqüência nefasta gerar o desinteresse pelo cinema. Permite o trabalho mesmo com um domínio pobre da produção cinematográfica contemporânea e seus filmes. Também desconhece os principais movimentos e autores da história do cinema. É importante lembrar que a ênfase na história social e política, em sua generalidade, não serve como indicador de manifestação menor da 'fobia diacrônica'. Este caso, menos grave certamente, tem como expressão fenomênica a ação de historiadores que se servem do cinema para estudar história, mas singularmente desconhecem a história do cinema.

4)'A Análise Fílmica Descritiva' - Muito presente no Brasil, sinaliza a deturpação de um elemento central dos estudos de cinema: o corpo a corpo com o filme. A descrição exaustiva abre espaço para a movimentação da grade analítica em direção ao detalhe, que passa a ilustrar, sem mediação, a grande teoria ou a dimensão metodológica hipertrofiada. É um grande perigo que ocorre ao pesquisador honesto. Este, sem perceber, acaba sempre encontrando o que procura, bastando descer a grade da análise sobre o detalhe que lhe convém. Corresponde, também, à atividade do pesquisador preguiçoso que não acredita no trabalho de campo, preferindo ficar junto ao controle remoto de seu aparelho DVD. Lá com certeza irá satisfazer seu ego, na empatia com a grande teoria na qual se espelha.
Bibliografia

Bordwell, David. Estudos de Cinema Hoje e as Vicissitudes da Grande Teoria. in Ramos, Fernão. Teoria Contemporâneo do Cinema. SP, Senac, 2004.

Aumont, Jacques. Moderno? Por que o cinema se tornou a mais singular das artes Campinas, Papirus, 2007.

Bordwell, David. Making Meaning. Inference and Rhetoric in the Interpretation of Cinema. Havard Univ. Press, 1989

Mascarello, Fernando. História do Cinema Mundial. Campinas, Papirus, 2006.

Marie, Michel e Jullier, Laurent. Lendo as Imagens do Cinema. SP, Senac, 2009.

Carrol, Noel. Film History and Film Theory: an outline for an institutional theory of film. in Carrol, Noël. Theorizing the Moving Image. Cambridge University Press, 1996.