/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
'Os Sertões de Matto Grosso': A estréia da Comissão Rondon no cinema.
Autor
William Nunes Condé
Resumo Expandido
No início do século XX, um grupo de militares movidos por idéias positivistas, pretendeu explorar e incorporar as então isoladas terras do centro-oeste brasileiro e as populações que aí viviam (estas predominantemente indígenas) ao resto do país. Esse grupo teve como principal expoente Cândido Mariano da Silva Rondon e como principal instrumento a construção de linhas telegráficas rasgando os sertões do centro-oeste e interligando essa região à cede do Governo Federal no Rio de Janeiro. Mas, em conjunto com a construção das linhas, a Comissão Rondon também foi pioneira na utilização das chamadas imagens técnicas (fotografia e cinema) na construção do seu projeto de Nação e no seu marketing estratégico. O principal articulador dessas imagens seria Luiz Thomaz Reis, mais tarde conhecido como major Reis.

Após algumas tentativas infrutíferas em anos anteriores, a Comissão realiza seu primeiro filme em 1912: "Os Sertões de Matto Grosso". Apenas alguns fragmentos (cerca de 3 minutos) desse primeiro filme realizado por Reis chegaram aos dias de hoje. Porém, seus intertítulos foram salvos através de sua reprodução em um dos relatórios da Comissão. Com base nesses intertítulos podemos ter uma idéia mais ampla do que foi esse primeiro filme, que era composto por 6 partes.

O filme se estrutura de forma a apresentar uma viagem realizada por Rodon para vistoriar os trabalhos de construção das linhas telegráficas e de manutenção dos núcleos de povoamento e de atração indígena, que se realizavam nos sertões de Mato Grosso. Partindo de Tapirapuã, Rondon vai adentrando cada vez mais nos sertões e, ao longo de sua trajetória, nos são mostrados diversos aspectos dos trabalhos realizados pela Comissão. Assim vemos, por exemplo, a construção da linha telegráfica propriamente dita; a manutenção de roças da Comissão (que tinham o duplo fim de funcionar como núcleos de povoação para garantir a auto-sustentabilidade dos postos instalados pela Comissão e servir de exemplo para atrair novas iniciativas de povoamento da região); alusões às explorações geográficas e estudos para incorporar aquelas regiões ao resto do país, tornando-as economicamente rentáveis; e o trabalho de “atração”, “pacificação” e “incorporação” das sociedades indígenas à sociedade “civilizada”, através da modificação de hábitos e modos de produção, inclusive com a utilização da mão-de-obra indígena em trabalhos ligados à Comissão (utilização que alude também à “questão do índio”).

Contudo, esse aspecto do relacionamento com as populações indígenas é mostrado de forma retroativa. Quer dizer, no início da viagem Rondon entra em contato com populações indígenas já em processo de “integração”. Depois, a partir da quinta parte do filme, evidencia-se o processo anterior a essa “integração”: a fase de pacificação / atração. E, finalmente, ao chegarmos na última parte do filme, temos pela primeira vez uma alusão explícita ao estado “selvagem” dos índios. Após tal alusão o filme termina de forma extremamente hábil, com os índios instando o Coronel Rondon a ficar entre eles (e permanecer por longo prazo, já que estão até construindo um rancho para ele ficar), numa clara alusão de que o trabalho de Rondon junto a essas populações indígenas não deveria ser interrompido. Ao terminar dessa forma, o filme sugere que Rondon não deveria “abandonar aquela população à própria sorte”, mas sim continuar junto a eles, dando continuidade ao seu trabalho de “proteção”, “pacificação” e “civilização”.

Podemos perceber que o filme fazia uma síntese dos diversos campos de atuação da Comissão Rondon, tendo como objetivo sensibilizar os espectadores quanto à importância dos trabalhos que estavam sendo feitos. Tal forma de terminar o filme está diretamente ligada a esse objetivo, e ganha ainda maior dimensão e sentido quando consideramos que a Comissão Rondon já vinha há alguns anos enfrentando fortes oposições que determinavam grandes cortes orçamentários e ameaçavam a continuidade de sua existêcia.
Bibliografia

DIACON, Todd A. Rondon: o marechal da floresta. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.



EMBRAFILME. Major Luiz Thomaz Reis, o cinegrafista de Rondon. Rio de Janeiro, 1982.



LASMAR, Denise Portugal. Estoques de informação: o acervo imagético da Comissão Rondon no Museu do Índio como fonte de informação, 2002. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – UFRJ. 2002.



TACCA, Fernando de. A imagética da Comissão Rondon. Campinas, SP: Papirus, 2001.



RELATORIO dos trabalhos executados em 1915 pela Seção de Fotografia e Cinematografia da CLTEMGA. 1916.