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  Título
Produtores Locais e a Exibição Cinematográfica de Filmes Pernambucanos
Autor
José Roberto Ferreira Guerra
Resumo Expandido
Um questionamento freqüente presente nos estudos da recepção cinematográfica é o papel ou o lugar do espectador na circulação do filme. A dinâmica social passa a representar, então, um contexto mais amplo no qual as relações de produção e de consumo estão inseridas. Tal dinâmica indica que os momentos distintos de produção-distribuição-consumo possuem apenas certa autonomia entre eles (cf. MASCARELLO, 2004). Nesse sentido, o momento do consumo dos produtos culturais também é influenciado por condições sociais que influenciam as leituras possíveis do produto (ARVIDSSON, 2008).

A construção do presente estudo surgiu da observação da dinâmica do setor cinematográfico na cidade de Recife em estudos nos quais buscou-se compreender os discursos presentes no fazer do filme (a etapa da produção) (PAIVA JR.; GUERRA; ALMEIDA, 2008). Tais resultados indicaram a necessidade de problematizar e analisar a “fase” da recepção. Nesse sentido, o objetivo do estudo é investigar quais as dimensões discursivas relativas ao setor de exibição cinematográfica de Recife e ao consumo de filmes pernambucanos a partir dos discursos dos realizadores locais.

Nos anos noventa, a volta de Pernambuco às telas do cinema tem relação com o movimento manguebeat que, em meados dessa década, [re]conecta a produção artística pernambucana ao meios de comunicação de massa. Esse ciclo alcançou o reconhecimento internacional, a considerar o mérito de aquisição dos prêmios em festivais internacionais nos últimos anos, como o de Roterdã e o de Cannes. Em oposição, esses filmes ainda encontram dificuldades para se inserirem nos circuitos comerciais de exibição na Região Metropolitana de Recife (RMR) seja pela falta de empresas distribuidoras que não vêem potencial de consumo nessas produções ou pelos cinemas multiplex já congestionados por títulos hegemônicos.

As salas de exibição na RMR estão cada vez mais restritas aos shopping center, impondo barreiras econômicas e sociais de acesso às salas e, conseqüentemente, ao próprio cinema produzido em Pernambuco, restringindo usa exibição às salas mantidas pelo Governo (uma sala vinculada a Fundação Joaquim Nabuco, Ministério da Educação, e duas mantidas pela Prefeitura da Cidade do Recife. Verificamos que a concentração geográfica/econômica das salas de cinema na RMR está relacionada com a presença das multinacionais do ramo de exibição. A manutenção de cinemas “públicos” é reflexo de uma política pública de cultura voltada para a inclusão e para a construção social do mercado (CARVALHO, 2006). Atualmente, 14,56% da taxa dos assentos disponíveis em salas de cinema da RMR estão sob o controle do poder público. O restante é administrado por complexos multinacionais ou por grandes cadeias nacionais, restringindo a circulação e exibição dos filmes produzidos em Pernambuco.

Uma forma inicial de acessarmos a relação estabelecida entre o momento da produção com a recepção seria encontrar os pontos de intercâmbio entre ambas. Algumas dimensões discursivas de realizadores locais relacionadas com os hábitos de consumo dos filmes pernambucanos são: posicionamento contrário ao cinema comercial e hegemônico; o resgate do ritual de ir ao cinema; o cinema como forma de pensar; a construção de narrativas que discutem identidades culturais próximas do público; a interlocução com o público; e a crítica à formação de uma platéia conformista (cf. PAIVA JR.; GUERRA; ALMEIDA, 2008).

Tanto os produtores, como os consumidores locais de filmes precisam negociar espaços para acessarem os filmes pernambucanos. Podemos observar que o sistema de produção independente se coloca como uma nova saída para o setor local, assim como a permanência de salas “públicas” de exibição e a consolidação de festivais locais que projetam a produção de Pernambuco (longas e curtas-metragens).
Bibliografia

ARVIDSSON, A. The Function of Cultural Studies in Marketing: a New Administrative Science? In: BROWNLIE, D.; TADAJEWSKI, M. Critical Marketing: issues in contemporary marketing. West Sussex: John Wiley & Sons Ltd., 2008. p. 329-43.

CARVALHO, L. A. Pressões ambientais e mudanças institucionais no campo do cinema em Pernambuco. 2006. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Administração, UFPE, Recife, 2006.

MASCARELLO, F. Os Estudos Culturais e a Recepção Cinematográfica: um mapeamento crítico. Revista ECO-PÓS, v. 7, n. 2, 2004, p. 92-110.

PAIVA JR., F. G.; GUERRA, J. R. F.; ALMEIDA, S. L. Produção Cinematográfica e Estudos Culturais: uma Análise dos Discursos do Cinema Pernambucano Contemporâneo. In: XXXII Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Administração, 32, 2008, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: ANPAD, 2008.