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  Título
Violência urbana e documentário brasileiro contemporâneo
Autor
Maria Beatriz Colucci
Resumo Expandido
O cinema brasileiro, do final dos anos 1990 e no início do século XXI, marcou-se pela expansão do documentário e por sua inserção definitiva no mercado cinematográfico e televisivo do país. Nesta expansão, um conjunto significativo de filmes voltou sua atenção para as questões sociais, especificamente aquelas relacionadas à violência urbana. Neste trabalho, propomos analisar quatro obras lançadas no período de 1999 a 2003: Notícias de uma guerra particular (1999), O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas (2000), Ônibus 174 (2002) e O prisioneiro da grade de ferro (2003).



Para análise dos filmes, pressupomos que as relações entre realidade e representação no filme documentário podem ser compreendidas como ‘representificação’, conforme conceito proposto por Paulo Menezes, “como algo que não apenas torna presente, mas que também nos coloca em presença de (...). O filme, visto aqui como filme em projeção, é percebido como uma unidade de contrários que permite a construção de sentidos. Sentidos estes que estão na relação, e não no filme em si mesmo.” (Menezes, 2004, p.44).



Assim, a percepção dos filmes como um conjunto significativo permitiu determinada elaboração de sentidos buscada nas relações entre os filmes, o real que os determinou, e os modos segundo os quais podem ser vistos pelos espectadores, tendo em vista especialmente a experiência pessoal de audiência dos mesmos, além da crítica produzida à época de seus lançamentos e da pesquisa realizada em ensaios e artigos científicos.



Tais filmes, em suas especificidades, definem uma identidade. São filmes brasileiros, documentários, e produzidos em contextos determinados, ou seja, nos espaços de exclusão das metrópoles brasileiras de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, num espaço de tempo também determinado, entre 1997 e 2001, considerando-se o período de filmagens propriamente dito. Essa identidade nos permite considerá-los como uma espécie de etnografia audiovisual que conforma alguns dados sobre a violência urbana brasileira nas últimas décadas. Mas os filmes também se inserem num contexto mais amplo, considerando a própria história do cinema documentário. Assim, incorporaram diferentes estratégias narrativas e visuais e destacaram procedimentos característicos do documentário contemporâneo.



Dentre as relações possíveis para análise, discutiremos neste trabalho quatro modos que nos parecem pertinentes, a partir: (1) da visão do conjunto dos filmes como uma etnografia que ‘representifica’ a violência urbana no período; (2) das negociações que remetem às formas de discursos construídos e se articulam nas estruturas narrativas; (3) das relações midiáticas estabelecidas no ato da filmagem e em elementos extra-fílmicos que conferem sentidos aos filmes; e (4) da fragmentação e do hibridismo, que caracterizam o cinema contemporâneo e definem o ritmo e a visualidade dos documentários, com a superação de modelos e renovação da linguagem.



Os quatro modos propostos certamente não são as únicas formas de abordagem desses filmes, mas foram elementos surgidos na análise que serviram para corroborar o que nos pareceu mais preponderante em cada filme. Assim, Notícias de uma guerra particular evidencia a etnografia, pela particular relação deste filme com o contexto histórico que o originou; O prisioneiro da grade de ferro as negociações e o questionamento da autoria; Ônibus 174 as relações midiáticas; e O rap do pequeno príncipe a renovação de linguagem e o hibridismo.



Acreditamos que o destaque à tematização da violência urbana manifesta um movimento de aproximação ou reaproximação com a realidade histórica brasileira. Tal problematização não ocorreu somente no documentário, mas impregnou, a partir dele, também o cinema de ficção. Sem dúvida, o cinema brasileiro dos primeiros anos do século XXI foi marcado pela abordagem dos conflitos sociais, dos dramas particulares e das guerras cotidianas vividas nos espaços de exclusão das grandes cidades brasileiras.
Bibliografia

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