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  Título
A televisão em transe: Glauber e o audiovisual
Autor
Alexandre Rocha da Silva
Resumo Expandido
A televisão em transe: Glauber e o audiovisual é resultado parcial de uma pesquisa mais ampla sobre as Teorias em dispersão dos cineastas brasileiros sobre o audiovisual, em que se busca identificar elementos de uma teoria por vir a partir da análise de três tipos de materiais - entrevistas, artigos e filmes – que, articulados, permitem compreender os modos como os cineastas concebem o audiovisual brasileiro. O primeiro cineasta estudado foi Mário Peixoto. Os resultados desta primeira fase da pesquisa foram debatidos na Socine 2009 e estão em fase de publicação. O cineasta em foco nesta fase da pesquisa é Glauber Rocha.

Entre os cineastas brasileiros, Glauber foi provavelmente o que mais escreveu artigos, além de conceder inúmeras entrevistas e de realizar produções tanto para o cinema quanto para a televisão. Costumava dizer que é cada vez mais necessário fazer cinema na televisão, que a televisão é o cinema popular por excelência e que ela nada deve às demais formas de produção audiovisual. Tais declarações polêmicas apontam para alguns dos objetivos deste artigo: precisar o que para Glauber é o cinema; compreender o cinema desde uma perspectiva que transcenda o meio que o veicula, na esteira de Eisenstein e seus conceitos de cinematismo e imagicidade, mas também na esteira de sua própria concepção de indústria cultural e dos desafios enfrentados por esta indústria no Terceyro Mundo. Parodiando Deleuze, pode-se afirmar a hipótese de que para Glauber a televisão brasileira não existe, mas necessita ser criada.

De fato, é isto que ele realiza em seus quadros no Programa Abertura: coloca a televisão em transe, e a reinventa. O ‘Abertura’ estreou em 4 de fevereiro de 1979, na rede Tupi de Televisão, sob a direção geral de Fernando Barbosa Lima, e tinha como objetivo a experimentação de linguagens e o debate de novos projetos estético-políticos. O Programa colocou no ar um dos melhores times de intelectuais, artistas e jornalistas já reunidos na história de televisão brasileira, como Antônio Callado, Ziraldo, Fernando Sabino, Sérgio Cabral, Antônio Guerreiro, Norma Bengel e o próprio Glauber Rocha. Glauber participou do programa durante quatro meses, com uma média de dois quadros por semana. Desse material, apenas 16 quadros foram resgatados e estão disponíveis para acesso.

Neste artigo esses quadros são retirados do fluxo televisivo, analisados e depois inseridos em um outro fluxo – o da pesquisa – onde junto com as entrevistas e os artigos que escreveu constituem o diagrama a partir do qual pretende-se dar visibilidade ao que aqui denomina-se teoria dos cineastas sobre o audiovisual.

A metodologia desta pesquisa seguiu três etapas: a Arqueologia (Foucault), a Desconstrução (Derrida) e a Semiótica (Peirce). À arqueologia coube determinar as condições de emergência dos discursos de saber de uma dada época, bem como a identificação daquilo que, na obra dos cineastas estudados, era periférico, ou seja, suas indicações sobre o que, para eles, seria uma teoria do audiovisual. À desconstrução coube trazer para o centro o que aparecia como periférico tanto nos filmes quanto nas entrevistas e artigos: a reflexão teórica a respeito do audiovisual brasileiro propriamente dita. E à semiótica peirceana coube traçar os diagramas capazes de articular os três diferentes registros já referidos – filmes, entrevistas, artigos – em um sistema capaz de explicar o funcionamento dessas teorias ainda não formalizadas.

Por fim, o artigo apresenta algumas reflexões sobre um possível projeto de televisão-verdade em que a idéia de documentário é deslocada para o próprio modo estético-político de se produzir linguagem na televisão, alvo preferencial do cineasta do transe.



Bibliografia

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