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  Título
Relações – aproximações. Sobre Arte, Técnica e Política no filme A Rev
Autor
Mauro Luiz Rovai
Resumo Expandido
Este trabalho pretende analisar o filme A Revolução de Maio (Portugal, 1937, direção de António Lopes Ribeiro, 134 minutos) a partir de duas pistas: 1. aproximando-o do filme italiano Camicia Nera (Itália, 1933, 73 minutos, direção de Giovacchino Forzano), obra que teria servido de inspiração ao filme português; e, 2. inserindo-o no debate sobre as relações entre arte, técnica e política nos anos 20 e 30. O filme de António Lopes Ribeiro conta a história de um revolucionário português, codinome Cesar, que volta a Portugal dez anos após a Revolução de 1926. Ele chega a Lisboa por via marítima e, desde antes do barco que o traz aportar, é seguido por dois policiais. Há várias oportunidades para prendê-lo, mas os policiais preferem deixar que Cesar reconheça, pouco a pouco, as mudanças ocorridas no país nos últimos dez anos, em particular após a chegada de Salazar ao poder, aspecto determinante no filme, dado que a obra se encerra com uma espécie de saudação ao líder do governo português. O filme mobiliza vários “gêneros” cinematográficos, como a comédia (em grande medida devido às falas, situações e atuação do ator Francisco Ribeiro), o musical (em dado momento, em um parque, Cesar chega a cantar para a sua amada, Maria; em outro, assistimos a uma peça musical que “está tocando” no aparelho de rádio de um dos personagens), o romance (Cesar, o revolucionário, apaixonou-se pela filha de um militar ligado a uma ideologia contra a qual luta) e o policial (representantes da lei e da ordem perseguem os inimigos políticos do regime). Entretanto, importa sublinhar, o empenho na execução da tarefa a que o filme se propõe – comemoração dos dez anos da Revolução de Maio – dá-se, sobretudo, devido à utilização de alguns recursos estéticos, dentre os quais salientarei apenas dois. O primeiro deles tem a ver com a tentativa de tornar o filme menos duro do que seu inspirador (Camicia Nera). O segundo, com o ritmo imposto ao filme, que propicia fluência narrativa e mobilidade para acomodar os vários “gêneros” acima citados. De fato, comparado a Camicia Nera, ou melhor, tendo sido precedido pelo filme de Giovacchino Forzano, A revolução de Maio explora o didatismo do seu antecessor, transformando a trama do filme em uma crescente tomada de posição pró-regime por parte do revolucionário “Cesar”. Apresentado como inteligente e ponderado, o revolucionário prepara uma pesquisa para mostrar, por meio de dados, que a situação em Portugal piorara. Os números e as informações claras e simples são escritos não só no caderninho que carrega, mas também na tela, em grandes letreiros, em uma comparação entre o antes e o depois da instauração do Estado Novo. A inserção desses dados é facilmente incorporada pela trama, pois o que esta nos oferece paulatinamente é a mudança de posição política de César, que, graças a sua postura ponderada, valoriza mais os “fatos”, os dados e os números do que o discurso ideológico. Além disso, os dois filmes trazem imagens de arquivo que registram discursos feitos por Mussolini e Salazar (nos filmes de Forzano e Lopes Ribeiro, respectivamente). Por outro lado, a montagem de A Revolução de Maio colabora para o ritmo mais suave da história que o filme nos conta, pois, no limite, trata da perseguição a inimigos políticos que tentam deflagrar o movimento revolucionário no dia da comemoração dos 10 anos da dita revolução. Com a exceção de um bloco do filme em que certa citação (uma citação muito clara) ao cinema de Eisenstein aparece, o filme segue outro padrão, misturando gêneros, apostando no par romântico, na dupla de policiais (um mais experiente e calmo, outro jovem e impaciente) e nas atuações de alguns artistas em particular.
Bibliografia

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