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  Título
Brasília em imagens: O espaço fílmico em 'A concepção', de José Eduardo Belmonte e 'Insolação', de Felipe Hirsch e Daniela Thomas
Autor
Fábio Crispim de Oliveira
Resumo Expandido
Brasília foi uma cidade concebida a partir dos grandiosos ideais modernistas. Trata-se de um projeto realizado a partir de uma utopia desenvolvimentista que permeou o Brasil especialmente na segunda metade do século XX. Nesse sentido, Brasília não é apenas uma cidade, é também uma idéia, um símbolo que representa o país para si mesmo. Essa condição ímpar permite reflexões que se inserem em temáticas bastante atuais como a formação identitária e os usos da imagem como formadora de um imaginário espacial socialmente compartilhado.

Os dois filmes trabalhados aqui, A concepção (2005) e Insolação (2009), foram filmados em Brasília. No entanto, a cidade emerge e aparece como parte integrante dos significados intrínsecos às narrativas ali encenadas, quer dizer, Brasília aparece não apenas como cenário, mas também como um importante espaço de reflexão sobre sujeitos contemporâneos, sobre a força ou a delicadeza com que sentimentos atravessam os corpos e os desejos de tais sujeitos.

A centralidade das questões espacializantes no cinema contemporâneo tem a ver com a fragmentação que constitui a percepção da realidade e a forma como os espaços influem na narrativa pode ser vista também como um sintoma dessa fragmentação. É a partir desse viés espacializante que a cenografia erigida nos dois filmes aqui analisados é abordada. Em A concepção, Belmonte retrata uma Brasília que se revela longe dos holofotes, longe dos protocolos e conluios políticos que são tão recorrentemente explorados ao se falar sobre a cidade. A perspectiva assumida é o cotidiano dos jovens que habitam os amplos espaços da capital do país nos dias de hoje. O espaço brasiliense aqui captado é ocupado por pessoas comuns e essas são as pessoas que são também “produzidas” por esse mesmo espaço. Trata-se de um espaço preenchido por uma gritante artificialidade, já que o cidadão brasiliense é (ou foi?) criado em um local sem tradição própria. É exatamente dentro desse contexto multiculturalista contemporâneo de problematização às naturalizadas identidades que se torna interessante pensar na construção da identidade brasiliense e é nesse ponto que Brasília se torna um lugar privilegiado para se pensar o fluido mundo contemporâneo. Além disso, se torna importante também analisar o cinema como mediação na percepção dessa realidade, uma vez que “o cinema e a cidade nasceram juntos aqui, como gêmeos históricos” (CARVALHO, 2002: 266).

Em Insolação, a Brasília captada pela ótica de Felipe Hirsch e Daniela Thomas é quase uma abstração, uma recriação. Na verdade, os espaços abertos e em grande parte vazios do filme acompanham o clima de desencontro, de não-pertencimento. Trata-se de um filme sobre o sentimento do amor e este se mostra incerto, poderoso, capaz de produzir o lento e insistente vagar das personagens por estes ermos espaços. O amor parece ser o único sopro de vida diante da sensível desolação espaço-temporal tão bem captada pela belíssima fotografia de Mauro Pinheiro Jr. e com isso as trajetórias das personagens apenas se tocam, melancolicamente, de forma não linear, formando uma obra capaz de suscitar sensações pela força dos silêncios. Talvez uma das falas do personagem de Paulo José transmita bem a atmosfera do filme: “O amor não foi feito para sermos felizes, mas para nos sentirmos vivos”.

O intuito aqui é o de refletir a respeito dessas imagens de/sobre Brasília, que se situam entre o vivido e o concebido na representação. Em alguns momentos, tais representações se assemelham, em outros, se distanciam. Na verdade, se torna mais profícuo analisar as estratégias de representação desse espaço tão recorrente na grande mídia e tão solidificado no imaginário coletivo, para, a partir daí, se tentar entender uma fragmentada identidade, talvez ainda em formação. Brasília se torna, assim, um espaço onde existe a rara possibilidade de se testemunhar esse complexo processo de identificação, bem como o poder das imagens na percepção do que se convenciona chamar de realidade.
Bibliografia

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 2004.



CARVALHO, Vladimir. Cinema candango: matéria de jornal. Brasília: Cinememória, 2002.



DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo (Cinema 2). São Paulo: Brasiliense, 2007.



GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Trad. Enilce Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.



HOLSTON, James. A cidade modernista. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.