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  Título
Gêneros em migração: convergências e pilhagens no cinema de bordas
Autor
Rosana de Lima Soares
Resumo Expandido
A proposta tem como objetivo estabelecer relações entre convergências midiáticas (especialmente audiovisuais) e gêneros híbridos no cinema de bordas brasileiro. Na primeira parte, apresentamos algumas perspectivas nas quais pensar os conceitos de convergências das mídias e de formas genéricas; na segunda, trazemos o conceito de cinema de bordas a partir do realizador pernambucano Simião Martiniano, notadamente em seu último filme – Show variado (2008) –, que combina elementos dos gêneros musical, comédia e artes marciais, a exemplo de trabalhos anteriores do diretor, configurando o que podemos chamar um gênero impuro. Retomamos o conceito de bordas como um gênero constituído por diversos outros e, ainda assim, distinto das categorias de paracinema ou cinema trash, bem como de gêneros considerados menos reconhecidos pela crítica, tais como terror ou faroeste.

Uma vez mais, apresentamos, portanto um tipo de produção audiovisual realizada no Brasil ainda muito pouco conhecida pelos próprios brasileiros. Em geral, são filmes produzidos em vídeo por realizadores autodidatas, diretores independentes que concretizam seus trabalhos valendo-se de parcos recursos financeiros e exibindo-os em feiras e praças, localizando-se à margem dos sistemas institucionalizados de produção, distribuição e exibição. Esse universo de realização tem sido definido por um grupo de pesquisadores como “cinema de bordas”. Tais filmes constituem uma espécie de “cinema invisível” baseado em reapropriações de gêneros cinematográficos; temas do cotidiano; atuação de atores não-profissionais; improvisação de roteiros; ausência de caráter referencial e, ao mesmo tempo, uma estética naturalista, resultando em formas singulares de criação.

Tomando os gêneros não como tipologias ou classificações rígidas mas, ao contrário, como formas baseadas em transposições e hibridismos, os filmes produzidos por meio dessas formas genéricas se apropriam de traços marcantes do cinema global e, ao mesmo tempo, agregam a ele características locais. Este conjunto de realizadores situa-se na periferia do cinema com produções que dificilmente atravessam as grandes salas de projeção e, ao mesmo tempo, com público cativo e familiarizado com os filmes em seus locais de origem. Tais realizadores encontram-se espalhados por diversas regiões do Brasil e produzem, dirigem, roteirizam e distribuem seus filmes não apenas nas bordas do cinema, mas do próprio país.

Dando continuidade, portanto, a debates anteriormente realizados e considerando as características acima apontadas, destacamos as formas periféricas do cinema de gêneros brasileiro – tanto em termos de seus modos de produção como de suas formas de criação e circulação social – a partir de filmes do realizador Simião Martiniano, que produz filmes de ação, romance e melodrama em diálogo com o cinema massivo, reapropriando-se de seus formatos. No caso específico de Simião, a segmentação regional – seus filmes são produções periféricas feitas no Nordeste – acrescenta um outro elemento à temática das bordas do cinema que pretendemos tratar nesta comunicação.

Estendendo essas questões, propomos nesta comunicação apontar relações entre os conceitos de convergências das mídias e hibridismos de gêneros, considerando, sobretudo as novas linguagens audiovisuais resultantes destes processos. Retomaremos, nessa abordagem, os conceitos de intertextualidade (a partir dos estudos de discurso) e de remediação (a partir dos estudos de mídias digitais) para analisar um certo tipo de cinema de bordas articulado em torno de fragmentos (re)apropriados de um gênero híbrido desde sua definição. Neles, os gêneros são dispostos de tal forma que escapam a qualquer tentativa de classificação, uma vez que não é a presença genérica que os modela, mas o modo cinematográfico como os elementos são distribuídos. A esse tipo particular de filmes chamamos de “cinema de bordas”.
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