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  Título
A sinfonia animada de Anélio Latini Filho
Autor
Daniel Moreira de Sousa Pinna
Resumo Expandido
De tempos em tempos, em todas as áreas do saber humano, surgem obras que se tornam marcos referenciais para o desenvolvimento de seu campo, revolucionando a maneira de se pensar e de se trabalhar determinada prática, resultando, por vezes, em profundas mudanças não apenas de atuação profissional, mas também de caráter social. Seus autores — por vezes pioneiros em suas áreas — tornam-se referências obrigatórias e celebrados ícones dos campos de estudos nos quais foram atuantes.



A história, nesse sentido, talvez tenha sido um tanto quanto injusta com o artista plástico brasileiro e cineasta de Animação Anélio Latini Filho. Artista prodigioso e visionário, Anélio foi um dos primeiros brasileiros a se enveredar pelos caminhos do Cinema de Animação, tendo sido o realizador do primeiro longa-metragem animado brasileiro: Sinfonia amazônica (1953). Um dos pioneiros da Animação no país, Latini trabalhou solitariamente em seu estúdio improvisado por seis anos, de maneira autodidata, inventiva e intuitiva. Com poucos recursos e sem financiamento nem uma bibliografia em que se apoiar, o cineasta atuou como roteirista, diretor, produtor, diretor de arte, artista conceitual e animador, realizando sozinho mais de 500 mil desenhos, valendo-se apenas de sua criatividade e determinação para fazer história.



Fruto das experimentações do artista com a técnica cinematográfica desde sua juventude, o mérito de Sinfonia amazônica não é unicamente o de ser o primeiro longa-metragem animado do Brasil (país que, mesmo hoje, conta com pouco mais de vinte filmes animados de longas durações em sua cinematografia). Trata-se de uma peça de valor inestimável pela riqueza de detalhes e qualidade técnica e estética do trabalho realizado. É também uma obra de caráter nacionalista, que exalta as belezas das paisagens, da fauna, da flora e da riqueza cultural amazônica ao cozer, em sua trama, sete lendas dos povos indígenas da região, com argumento assinado pelo folclorista Joaquim Ribeiro. Com inspiração em filmes da era de ouro dos estúdios Disney como Fantasia, as imagens animadas por Latini movimentam-se como em um balé de formas e luzes, em perfeito sincronismo com peças musicais clássicas e gêneros tipicamente brasileiros, como o samba e o choro, contando ainda com a participação da flauta do músico Altamiro Carrilho, em trilha composta especialmente para uma das sequências do longa.



O trabalho de Anélio Latini Filho é apontado como o início do processo de popularização e assimilação no Brasil das técnicas empregadas na criação de uma obra animada. Um bem-humorado prólogo do filme, no formato de documentário e com narração do famoso radialista Almirante, apresenta, de maneira didática, o processo de realização de um filme de Animação, demonstrando o emprego de storyboards, os estudos de criação de personagens e cenários (arte conceitual), a marcação do som em fichas de sincronização, o desenho de animação, a técnica de pintura no acetato e a composição de multiplanos na truca, tal qual um making of dos dias atuais.



Graças ao sucesso da produção, os olhos do Brasil e do mundo voltaram-se para a Floresta amazônica na década de 1950. Hoje, obra e criador estão relegados ao esquecimento. Vítima do descaso do país com sua própria história, esse marco do Cinema de Animação brasileiro ficou esquecido por décadas, se deteriorando nos porões da Cinemateca Brasileira. Em 2008, no entanto, foi reapresentado a uma nova audiência na cinemateca do MAM (Rio de Janeiro), nas comemorações do quinto aniversário do Cineclube Tela Brasilis, evento no qual foi apresentado aos presentes um projeto de restauração da obra.



O presente trabalho tem por objetivo resgatar a memória de um dos mais importantes cineastas de Animação brasileiros e de sua mais representativa obra. Trata-se de um levantamento histórico preliminar de uma pesquisa mais ampla, que visa ainda o levantamento completo da história das primeiras décadas da Animação cinematográfica no Brasil.
Bibliografia

BARBOSA JÚNIOR, A. L. Arte da animação: técnica e estética através da história, São Paulo: Senac, 2002.



FALCÃO, A.; BRUZZO, C. (orgs.). Animação – Coletânea Lições com Cinema v.4. São Paulo: FDE/Secretária de Estado da Cultura, 1996.



FONSECA, R. Curumim sai da toca. O Globo, Rio de Janeiro, 9 jul. 2009. Segundo Caderno, p. 1.



MORENO, A. A experiência brasileira no Cinema de Animação. Rio de Janeiro: Artenova/Embrafilme, 1978.



PECH, D. Um homem e sua sinfonia. In: Cineclube Tela Brasilis 65 (folheto). Rio de Janeiro: Cineclube Tela Brasilis, 2008.



PROJETO DE RESTAURAÇÃO DA OBRA AUDIOVISUAL SINFONIA AMAZÔNICA. Rio de Janeiro: Arwel Art, [s/d]. Disponível em Acesso em: 8 mar. 2010.



RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luiz Felipe (orgs.). Enciclopédia do Cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 1997.