/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Um comediante brasileiro: Zé Trindade – o trambiqueiro conquistador
Autor
Afrânio Mendes Catani
Resumo Expandido
Meu objetivo é estudar a trajetória do comediante Milton da Silva Bittencourt (Zé Trindade, 1915-19990), que alcançou o auge da carreira na fase áurea das chanchadas - final dos anos 40 e início dos 60. Fez 36 filmes, 33 até 1962. Escrevo a partir do ótimo verbete de J. L. Vieira à Enciclopédia do Cinema Brasileiro. Trindade nasceu em Salvador e começou a trabalhar aos 11 anos em hotel da cidade. Em 1935 foi para a Rádio Sociedade da Bahia. Já tinha o humor verbal que o caracterizou e era bom piadista. Em 1937 mudou-se para o Rio de Janeiro. Ingressou na Rádio Clube em 1945 e tornou-se famoso a partir de 1947, na rádio Mayrink Veiga, onde ficou por 20 anos. No cinema fez ponta em O malandro e a grã-fina (1947) e pequenos papéis em comédias, carnavalescos e adaptações de obras de Taunay (Inocência, 1949) e José de Alencar (Lucíola), vertida para Anjo do lodo (1951), além da cinebiografia do compositor Sinhô (O rei do samba, 1952), todos dirigidos por Luiz de Barros. Trabalhou na Cinédia, Brasil Vita, Flama, Cinelândia Filmes e com Watson Macedo. Atingiu o status de protagonista em O negócio foi assim (1957), de Luiz de Barros, primeira fita que deslanchou seu nome como principal atração de bilheteria. Diferente de outros comediantes, vindos do circo ou do teatro de revista, tinha formação de radialista e seu humor estava na fala, não no corpo. Não tinha a bondade e a ingenuidade dos demais comediantes: era esperto, malandro, mulherengo, fazendo tipos urbanos brasileiros. Vieira escreveu: “‘O negócio é mulher!’, ‘com licença da má palavra’, ‘é lamentável’, ‘papelão’,‘o negócio é perguntar pela Maria’ são apenas algumas das inúmeras frases ditas com malícia e pesado sotaque nordestino por Trindade (...) que garantiram (...) cumplicidade com o público da chanchada. Ao final dessas exclamações deixava à mostra uma língua lúbrica de saliva e explícita em suas más intenções, indispensável à troca de energias com o público, possibilitada pela identificação imediata com o universo sexista do gênero”. Era baixinho, gordo, de bigodinho fino, “espécie de ‘cafajeste maduro’, trambiqueiro e conquistador”. Na Atlântida destacou-se em Garotas e samba (1957) e em Treze cadeiras (1957); Tem boi na linha (1957) foi o primeiro encontro com o diretor Aluízio T. Carvalho, também de Salvador. Foi protagonista em várias comédias: com Violeta Ferraz, em Rico ri à toa (1957), como chofer de praça que ficou milionário, primeiro longa de Roberto Farias; em duas parcerias com Aluízio – Maluco por mulher (1957) e o punguista Mão Leve em O batedor de carteiras (1958). Na Cinelândia Filmes fez, com Arrelia, Na corda bamba (1958); foi camelô em O camelô da rua Larga (1958), argumento dele com Chico Anísio. No papel principal de Mané Fogueteiro, parodiou faroestes em Agüenta o rojão (1958), único longa com Watson Macedo. Atuou nas produções de Herbert Richers, com a sedutora Renata Fronzi como parceira em Espírito de porco, Massagista de madame (1959) e Marido de mulher boa (1960). Contracenou com Grande Otelo em Mulheres à vista (1959), é o falso massagista em Massagista de madame e o escroque em Entrei de gaiato (1960), com Dercy Gonçalves. É o mulherengo dono de ateliê de modas em Marido de mulher boa (1960) e o Príncipe Danilo, em Viúvo alegre (1961). Em Mulheres, cheguei (1961), o farrista Zeferino fica preso num cofre com várias beldades. Cria o coronel Polidoro, manda-chuva do interior, com Jayme Costa em Bom mesmo é carnaval (1962). Apenas em 1971 voltou à comédia: é o coronel Piragibe, com o comediante Colé, em Jesus Cristo... eu estou aqui. Protagonizou Tem folga na direção (1977) e sua despedida no cinema foi com Carlos Diegues (Um trem para as estrelas, 1987), como o aposentado Oliveira, refugiando-se com uma cerveja no elevador para fugir da mulher brava.Gravou discos de humor e compôs umas 200 músicas, gravadas por outros cantores e mesmo por ele. Viveu Buster Keaton, porteiro de cabaré, na minissérie da Globo, Memórias de um gigolô (1986).
Bibliografia

AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK. São Paulo: Cinemateca Brasileira/Companhia das Letras,1989.

BASTOS, Mônica Rugai. Tristezas não pagam dívidas: cinema e política nos anos da Atlântida. São Paulo: Olho d´Água, 2001.

CATANI, Afrânio Mendes. História do cinema brasileiro: 4 ensaios. São Paulo: Panorama, 2004.

DIAS, Rosângela de Oliveira. O mundo como chanchada: cinema e imaginário das classes populares nos anos 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.

SOUSA, José Inácio de Melo; CATANI, Afrânio Mendes. A chanchada no cinema brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983.

VIEIRA, João Luís. A chanchada e o cinema carioca (1930-1955). In: RAMOS, Fernão (Org.). História do cinema brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987.

¬¬¬VIEIRA, João Luís. Zé Trindade (verbete). In: RAMOS, F. P.; MIRANDA, L. F. (Orgs.). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Editora Senac, 2000.