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  Título
Norma industrial e autorismo nos filmes da "renascença americana".
Autor
Marcos César de Paula Soares
Resumo Expandido
O “estado de exceção” que caracterizou os métodos da indústria norte-americana a partir do final dos anos 60 foi amplamente analisado pela fortuna crítica, que construiu mitos em torno da suposta liberdade criativa que caracterizou a “renascença de Hollywood”, nome dado ao conjunto de filmes de uma geração de diretores jovens cujo trabalho vinha salvar a indústria da pior recessão de sua história. O modelo de autores europeus, que haviam demonstrado que a indústria e as platéias estavam prontas para certo nível de experimentação formal e ousadia temática, serviu de combustível para a imaginação dessa geração de norte-americanos, que construiu seu próprio padrão internacional de gosto. Assim, a "nova onda" americana produziu dois efeitos imediatos que salvaram a indústria da catástrofe: efetuou o desmonte do sistema tradicional de estúdios, que se livrou dos altos custos de manter departamentos internos permanentes e colocou a responsabilidade sobre as decisões criativas e dos riscos de prejuízo nas costas de “produtores independentes”; e criou um arejamento formal e temático de grande interesse. Grande parte da crítica especializada elogiou os avanços temáticos e estilísticos que caracterizaram parte da produção do período.



Mas o que dizer dos empréstimos formais que esses filmes realizaram do cinema europeu mais avançado da época? A questão foi alvo de uma série de trabalhos críticos, a maioria dos quais privilegia a visão dos novos diretores como verdadeiros autores americanos, que foram capazes de enriquecer a linguagem dos filmes de estúdio e criar obras nas quais expressavam uma visão pessoal a despeito das pressões industriais. Desde então, parte significativa da crítica investigou com ardor as semelhanças estilísticas entre, por exemplo, "Jules et Jim" e "Butch Cassidy and the Sundance Kid" , ou, a influência de Godard e Kurosawa sobre a montagem de "Bonnie and Clyde". Os trechos cuidadosamente escolhidos para análise pela fortuna crítica são aqueles que aprendemos a reconhecer como marcos do cinema do período. A aplicação localizada das conquistas da vanguarda contava aqui com o apoio de pelo menos dois desenvolvimentos então recentes. De um lado, o treinamento do olhar realizado por uma revolução da publicidade americana do período, que realizou uma renovação de seu repertório a partir da utilização de empréstimos das artes visuais modernistas e criou um estilo que ensinava os olhares mais antenados com as novas tendências a identificar rapidamente arranjos visuais inusitados e refinados. De outro, o desmonte do repertório das conquistas do teatro épico de Brecht por parte da terceira geração dos Cahiers du Cinema, que sob o influxo das derrotas de 1968, passou a uma relativização das formas empregadas pelas alas mais radicais dos cineastas europeus e sua redução a um receituário formalista. Essa abordagem crítica, que formava o currículo da quase totalidade dos novos cursos universitários de cinema abertos recentemente nos EUA, deu impulso a uma reviravolta formalista que fazia, assim, o elogio da mistura e do fragmento desmemoriado, enfatizando momentos de certo hibridismo descabido, como no caso da mistura inusitada entre Godard e Kurosawa em algumas cenas do filme de Penn. Já a armação narrativa raramente foi objeto de análise, não só porque a idéia das grandes narrativas-mestras ficava fora de moda devido ao ataque pós-estruturalista, mas também porque a despeito de transgressões localizadas, a armação ampla dos enredos nos filmes dessa geração conserva seu aspecto mais convencional. Partindo dessa perspectiva, os empréstimos das técnicas das vanguardas européias podem ser entendidos como momentos de sofisticação formal empregados cosmeticamente em filmes que obedeciam, a despeito de contravenções localizadas, as exigências de construção linear de enredo. Essa confluência peculiar forma a base do nascimento de uma estética pós-modernista no cinema norte-americano.
Bibliografia

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