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  Título
Audiovisual por ele mesmo: “O Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais”
Autor
Dennison de Oliveira
Resumo Expandido
O audiovisual sempre se prestou ao papel de registro histórico, suporte de memória e material para reflexão sobre diferentes aspectos da realidade, inclusive sobre ele próprio. Em especial o formato de documentário apresenta, historicamente, inúmeras virtudes em se tratando de atender a estas finalidades. Praticamente desde os primórdios do cinema se dispõem de vários filmes sobre diferentes dimensões da relação da mídia com a sociedade, sua história e suas transformações.

No Brasil o precursor do uso do audiovisual como registro, suporte e reflexão, conforme os termos já mencionados, provavelmente foi Jurandyr Passos Noronha. Ele dirigiu em 1968, sob os auspícios do Instituto Nacional do Cinema, o clássico “Panorama do Cinema Brasileiro”. Nos anos 1970 em diante surgiram retrospectivas históricas da televisão no Brasil. O foco desta produção era a contribuição da emissora, ou da rede de TV a que se filiava, para a História deste meio de comunicação, numa abordagem comemorativa.

Uma reflexão mais ampla sobre os diferentes suportes audiovisuais, que incluíssem outras mídias além do cinema e da TV, bem como da relação destas com a sociedade, só foi surgir no Brasil no século XXI. A série de documentários para televisão intitulada “O Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais”, foi a primeira a encarar esse desafio. A série em quinze episódios, foi produzida para o Canal Futura e idealizada por Cao Hambúrguer, também seu diretor geral. Além dele também atuaram como diretores Paulo Caruso e Teo Popovic, bem como extensa equipe de produção.

A estréia foi em abril de 2009, sendo constantemente reprisada deste então. Seus episódios são fechados, podendo ser assistidos isoladamente, na seqüência proposta pela produção ou naquela que interessar à audiência. Eles podem ser divididos em três categorias, ou fases. Inicialmente tratou-se de conceitos fundamentais da relação do audiovisual com a sociedade: Verdade (1º. Episódio), Realidade (2º.), Ficção (3º.). Os episódios da fase seguinte podem ser entendidos como interpretações de distintos gêneros audiovisuais: Artificiais (4º.), Experimentais (5º.), Subterrâneos (6º.), Instantâneos (7º.), Populares (8º.), Violentos (9º.), Pornográficos (10º). A fase final da série, englobando cinco episódios, se dedica a explorar distintos aspectos do processo social da produção audiovisual: Montagem (11º.), Sonoros (12º.), Reciclados (13º.), Interativos (14º.). Finalmente, existe um episódio de encerramento com uma reflexão sobre o futuro do audiovisual (15º.).

Todos episódios são fortemente baseados em depoimento de personalidades que são referências em seus distintos ramos de atividade: pesquisadores universitários, diretores, roteiristas, produtores, blogueiros, videastas, publicitários, filósofos, etc. Tais falas são entremeadas por material de arquivo, encenações, vinhetas, montagens, etc. Outro recurso de que os produtores lançaram mão foi a intensa utilização de falas da apresentadora do programa e de narração em voz over. Mais ainda, ao invés de pretender qualquer homogeneidade de estilo, ou sequer uma estética reconhecível, a produção parece ter lançado mão do ecletismo ou, mais precisamente, do abandono de qualquer hierarquia nas linguagens e mídias, permitindo-se usar trechos de filmes, imagens de televisão, fotos digitais, arquivos de videotape, imagens tomadas por web cam, celular, etc.

O resultado é – via de regra – a elaboração de um discurso documentário sobre o audiovisual que, embora recorrentemente pautado por referências acadêmicas, absolutamente não se expressa de forma acadêmica, e nem sequer se atém aos cânones do gênero documentário. O objetivo desta pesquisa sobre a série de documentários televisivos “O Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais” é, com base no exame da sua linguagem e conteúdo, avaliar a maneira pela qual são interpretadas as relações entre o audiovisual e a sociedade contemporânea.

Bibliografia

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