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  Título
Estigmas da autoreflexividade no Dogma 95
Autor
Angelita Maria Bogado
Resumo Expandido
Ainda pouco estudado, o Dogma 95 merece uma maior atenção por parte de nós estudiosos do cinema. Desde 1960 o cinema não via uma onda que trouxesse algum tipo de frescor e novidade para a produção fílmica. Estudar um movimento como o Dogma é ter a possibilidade de refletir sobre um modelo que vai além do padrão reducionista do cinema comercial.

Através de uma subversão normativa o Dogma 95 trouxe a possibilidade de uma estética reflexiva e inovadora. Um manifesto que reagiu contra as tendências contemporâneas da indústria cinematográfica e rompeu com o dogma do cinema convencional.

A subversão é normativa, porque a liberdade em relação ao cinema industrial, defendida pelo Dogma foi erguida por meio de regras, a liberdade passa inevitavelmente por limitações.

Os estudos recentes sobre o Dogma 95 são pesquisas que apontam a importância do movimento, as inovações estéticas introduzidas pelos primeiros filmes, Festa de família e Os idiotas, e como estas obras influenciaram o modo de representação e recepção do cinema pós Dogma. São estudos que salvam o Dogma 95 da primeira crítica, rasa e míope.

As pesquisas do nosso grupo de estudos (Dogma 95: uma subversão normativa) apontam, principalmente, para o caráter autoreflexivo do Dogma, o diálogo com as técnicas teatrais (teatro brechtiano) e o emprego do discurso alegórico. O estudo de Bertolt Brecht e da alegoria despertaram a reflexão e a apreciação crítica dos discentes de cinema.

Brecht há meio século rompeu com o realismo clássico, com o teatro aristotélico por meio de regras. Criou um esquema que apontava os meios práticos para se realizar um teatro épico.

A partir dos preceitos regrados por Brecht e pelo movimento, veremos que o discurso, tanto do Dogma quanto do teatrólogo alemão, esta centrado na reflexão sobre os modos de produção. E ao pensar e modificar os meios de produção, ambos estão preocupados com a perspectiva do espectador. Trier e Brecht colocam o público como agente, um público apto a julgar e criticar a si mesmo e a sociedade.

O Dogma tem atraído olhares por diversas razões como: o traço de coletividade, a democratização tecnológica e a humanização do processo. No entanto, pouco foi dito sobre o caráter autoreflexivo do movimento. O estudo da autocrítica, no movimento criado pelos cineastas dinamarqueses Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, merece atenção. O caráter de pensar a si mesmo é evidente, mesmo antes de sua estreia nas telas, a Carta manifesto e os seus dez mandamentos determinam um voltar para si. O Dogma põe a si próprio no centro da reflexão, é ao mesmo tempo agente e produto da ação, isto é sujeito e objeto da reflexão.

O modelo adotado pelo Dogma para pensar a si mesmo se assemelha ao pensamento filosófico do alemão Johann Gottlieb Fichte (Doutrina da Ciência, publicado em 1794).

O Eu de Fichte é forma pura, que ao refletir sobre a sua forma gera a autoconsciência. Seguindo o raciocínio descrito na Doutrina da Ciência, só somos algo a partir de nós mesmos, um eu autodeterminante e autodeterminado possuidor de uma liberdade desmedida e inconcebível até então.

Este primeiro princípio da filosofia transcendental de Fichte irá introduzir a possibilidade de uma criação livre e infinita da arte.

Este é o espírito do Dogma: ser forma e conteúdo, ver a si mesmo. O mecanismo que estes cineastas encontraram para criticar o cinema e os seus próprios dogmas foi o emprego da alegoria. Este estudo pretende apontar algumas alegorias que se colocam como exemplo modelar da autocriticidade do movimento. A alegoria é operada no Dogma não apenas como modo de produção, mas principalmente como forma de análise e interpretação da obra. Esse manejo da alegoria foi introduzido pelos teólogos como forma de se interpretar os textos sagrados, portanto, a relação do Dogma com o discurso cristão é evidente e se estabelece de forma consciente. Esta pesquisa pretende desvelar o propósito desta estratégia narrativa.

Bibliografia

BORNHEIM, Gerd. Brecht a estética do teatro. SP: Graal, 1992

FICHTE, Johann Gottlieb. A Doutrina da ciência de 1794 e outros escritos. (Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho). São Paulo: Nova Cultural, 1992, p. 35-176.

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