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  Título
Arte e Mídia no cinema de Federico Fellini
Autor
Anderson Melo
Resumo Expandido
Ao atingir a façanha de conjugar arte e mercadoria, crítica e público, o cinema de Federico Fellini mostra-nos como é possível fazer poesia utilizando os próprios meios e dispositivos da cultura midiática do espetáculo, sem com isso cair na degradação de padrões estéticos inexpressivos ou em discursos estéreis e manipuladores. Pelo contrário, o cinema de Fellini revela a potência de uma dimensão estética capaz de construir um amplo e complexo quadro de relações sociais, históricas e econômicas, de modo a valer-se das tecnologias de produção artística constituídas no bojo da indústria cultural, para colocar em crise os modos como esse próprio sistema nos apresenta a vida. Em vez de tomar o caminho retórico, iconoclasta, esteta ou ensaísta pelo qual muitos artistas trilharam com o propósito de também revogar a legitimidade desse sistema, Fellini adota a postura singular de sondar a caixa preta do aparelho (utilizo a expressão de Flusser para me referir ao dispositivo cinematográfico), e criar a partir dela, subvertendo seus programas, linhas de força e movimentos capazes de engendrar um novo ritmo no qual podemos celebrar a vida sem a necessidade de lhe atribuir qualquer sentido.

Se em Fellini, tudo de fato parece ser uma festa, não se trata, contudo, da promoção de um estado de alienação. Tampouco o universo do sonho, da memória e da fantasia , típico de seus filmes, não representa a simples expressão de sua nostalgia, uma fuga da realidade, ou a mera afirmação narcisista de sua personalidade, como alguns já afirmaram. Antes disso, Fellini assume a condição de que toda e qualquer realidade é fabricada, e o cinema, como instrumento ideal para a produção da obra de arte total - a tão sonhada Gesamtkunstwerk - tem não apenas o poder, mas o dever de assumir um papel à altura de suas potencialidades transformadoras. Não cabe ao cinema retroceder para o racionalismo conceitual e abstrato da escrita alfabética, mas exercer sua maior vocação: materializar imagens produzidas pela nossa milenar capacidade de sonhar, fabular, imaginar, criar e inventar novos mundos, como bem faz o cinema de Fellini, ao produzir uma poesia cuja força transformativa propulsora surge da experiência sinestésica, sediada no corpo, desencadeada por um jogo de imanências no qual o primordial é a densidade da superfície, e não as profundidades discursivas da velha tradição hermenêutica.

Nesse sentido, o percurso traçado por suas realizações é emblemático de modo a demonstrar como seu cinema vai da mímese à performance, partindo da representação para a apresentação, atingindo a apoteose ao congregar dois aspectos: a concepção de uma visão de mundo carnavalesca, no sentido que Bakhtin desenvolveu em sua tese sobre a obra de Rabelais; e uma mise en scène essencialmente musical, ou melhor, rítmica, no sentido que Deleuze e Guattari atribuem ao termo quando desenvolvem o conceito de ritornello. Se no primeiro caso, temos a incorporação da cultura popular como matéria de expressão de discursos audiovisuais altamente refinados, no segundo temos a engrenagem de uma máquina intermidiática que opera como uma grande roda, produzindo um espetáculo circense no qual o entretenimento traz consigo o fruto nutritivo do que pode ser historicamente compreendido, parafraseando Benjamin. Ainda que o espectador não perceba a força ambivalente desse gesto, é possível que ele provoque ressonâncias posteriores ao fim do espetáculo, na vida real, como queria Fellini. O viés cômico e festivo presente em seus filmes não incide apenas sobre uma perspectiva paródica da história e das práticas sociais, tampouco como meio de atenuar as tensões do trabalho e os embargos da vida cotidiana. Antes disso, parece estar ligado a uma visão de mundo já presente nos ritos e espetáculos da Antiguidade, de modo a acentuar em suas formas de expressão aquilo que Bakhtin definiu como um lirismo de alternância e renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder.
Bibliografia

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Brasília: Ed. UnB, 2008.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.

COHEN, Renato. Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva, 2007.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. vol. 4. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2005

FLUSSER, Vílem. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Sinergia Relume Dumará, 2009

FLUSSER, Vílem. O universo das imagens técnicas. São Paulo: Annablume, 2008

FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1978.

SERRES, Michel. Variações sobre o corpo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. De Flusser a Benjamin: do pós-aurático às imagens técnicas. In: Flusser Studies. v. 8, 2009. p.1-17. Disponível em: Acesso em 30/03/10.