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  Título
Convergência à brasileira: reflexões sobre a indústria audiovisual
Autor
Lia Bahia Cesário
Resumo Expandido
Os meios audiovisuais têm recebido tratamentos distintos na análise teórica no Brasil. Enquanto o olhar sobre a televisão é dirigido para a indústria, o enfoque sobre o cinema volta-se para o artístico; enquanto a televisão é um negócio empresarial-comercial, o cinema é majoritariamente política estatal. Essas dicotomias fundamentam os estudos sobre a industrialização do campo audiovisual brasileiro. No entanto, as abordagens baseadas na polarização entre os meios parecem ter perdido potência explicativa diante da tendência mundial da convergência transmidiática. Trabalharemos com a perspectiva de que a convergência representa uma transformação cultural, para além de avanços tecnológicos. Assim, a convergência altera a relação entre tecnologias existentes, indústrias, mercados, gêneros e públicos (JENKINS, 2008).

É plausível supor a existência de um deslocamento do campo audiovisual brasileiro, em resposta às estratégias de convergências, para além das disputas clássicas da cultura audiovisual nacional. São exemplos deste processo os projetos: o curta Palace II (2001) de Fernando Meirelles e Kátia Lund que dá origem ao filme Cidade de Deus (2002) de Fernando Meirelles que tem continuidade com a série na TV Globo Cidade dos Homens (2002-2005), de diretores variados, e que, em 2007, se torna um longa-metragem de Paulo Morelli; a seqüência e o sucesso de público do filme Se eu fosse você (2006) e Se eu fosse você 2 (2009) de Daniel Filho, produzido pela produtora independente Total Entertainmemt, co-produzido pela Globo Filmes e distribuída pela Fox Film do Brasil, sendo o último recorde de público da retomada do cinema brasileiro; a exibição da minissérie Som e Fúria (2009) de Fernando Meirelles, uma co-produção da TV Globo com a produtora O2,; a exibição na TV Globo da minissérie Decamerão – A comédia do sexo (2009), dirigida por Jorge Furtado e co-produzida com a produtora Casa de Cinema de Porto Alegre; a telessérie brasileira Mandrake, de diretores variados, produzida pela produtora Conspiração e exibida por programadora internacional (HBO); a exibição da microssérie A Pedra do Reino (2007) na TV Globo, de Luiz Fernando Carvalho e a sucessão de obras geradas a partir do livro de Suassuna - a exposição, o lançamento nas salas de cinema, em DVD, o CD e os dois livros gerados a partir da microssérie.

Os produtos audiovisuais citados acima dinamizam relações entre meios audiovisuais e se conformam como produtos fronteiriços e elásticos que permitem o alargamento e aproximação dos meios, além de gerarem produção interdependente. Estes produtos audiovisuais estão inseridos no projeto de crescente consolidação de uma lógica convergente e de narrativa transmidiática do campo audiovisual brasileiro. Iniciativas institucionais como a criação de um departamento de cinema da TV Globo - Globo Filmes – e as dinâmicas entre cinema e televisão por ele proporcionadas, a entrada gradual de produção audiovisual independente na TV aberta e TV fechada (programadoras internacionais) e os novos fluxos de audiovisual nacional via home-vídeo, internet, telefone, etc são ações que estamos designando como a reinvenção do campo audiovisual nacional. Estes processos são recentes no país e ainda estão em consolidação; contudo, já apontam uma reorganização que pode ser percebida nos currículos das produtoras audiovisuais nacionais, nos novos modelos de negócios, na produção de novos formatos e gêneros, na ampliação e diversificação das formas de distribuição e exibição dos produtos, na transformação da cadeia produtiva e nas práticas de consumo e usos dos mesmos. Este cenário se articula de maneira interdependente e circular, dialogando com continuidades e rupturas históricas, tornando-se terreno de novas tensões, disputas e negociações.

Bibliografia

BAHIA, Lia Cesário. Uma análise do campo cinematográfico brasileiro sob a perspectiva industrial: UFF, 2009.

BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2008.

BUTCHER, Pedro. A dona da história. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006.

FIGUEIRÔA, Alexandre e FECHINE. Yvana. Guel Arraes: do Cinéma Verité à dramaturgia na TV. Anais do Congresso Intercom, 2002.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.

KOMPARE, Derek. DVD Box. Sets and the reconception of television, in Television and New Media Vol. 7 Num.4, Novembro de 2006, p. 335-360.

LIPOVETSKY. Gilles. A felicidade paradoxal. São Paulo, 2007.

MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Senac, 2005.

_________________. Pré-cinemas & pós-cinemas. Campinas, SP, Papurus, 2008.

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira. São Paulo: Brasiliense, 2001.

ORTIZ RAMOS, José Mario. Cinema, televisão e publicidade. São Paulo: Annablume, 2004.