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  Título
O tempo dramático na telenovela “O grito”, de Jorge Andrade
Autor
sabina reggiani anzuategui
Resumo Expandido
“O grito” foi a segunda telenovela escrita por Jorge Andrade para a TV Globo, depois de uma adaptação de “Os ossos do barão”, em 1973-74. A novela foi exibida às 22h, horário dedicado às novelas “experimentais” (CAMPEDELLI, 1985, p. 34). A trama se concentrava no edifício Paraíso, em frente ao elevado Costa e Silva (conhecido como Minhocão), onde mora uma ex-freira, viúva, mãe de um menino excepcional que grita desesperadamente durante a noite. O grito incomoda vários moradores, que convocam uma reunião de condomínio para expulsá-la do prédio.



A obra tinha uma construção temporal pouco usual para o formato. No “Almanaque da telenovela brasileira”, de Nilson Xavier, o recurso é assim descrito: “Sem ser informado sobre a unidade de tempo da história, o telespectador foi surpreendido no final de ‘O grito’ ao descobrir que a trama toda se passou em uma única semana. O autor teve o cuidado de não deixar o público perceber esse detalhe durante os seis meses de exibição da novela.” (XAVIER, 2007, p. 162) De fato, a revelação do jogo temporal ocorre num diálogo do último capítulo: “Estava me lembrando...! Já pensou quanta coisa aconteceu nesta semana? (...) Foi sexta-feira passada, exatamente há uma semana, que o síndico participou o roubo do interceptador! E quantas coisas não aconteceram em apenas seis dias!”.



Este trabalho propõe a análise desta construção, a partir dos roteiros originais da obra. Acompanhando a trajetória de alguns personagens, nota-se o desenvolvimento lento do enredo. Um eixo narrativo de grande curiosidade, por exemplo, é a relação de Kátia e Agenor, interpretados por Yoná Magalhães e Rubens de Falco. Ela é uma jovem secretária, sobrevivente do incêndio no edifício Joelma (referência à tragédia real, ocorrida em 1974. Independente, libertária e sedutora, Kátia decide se aproximar de Agenor, um “solteirão” que desperta comentários maliciosos entre os moradores, por sair à noite vestindo “roupas extravagantes”.



Kátia se comove com a solidão de Agenor, e assume o papel de “samaritana sexual”, tentando seduzi-lo para que ele descubra o que é ser homem (as expressões entre aspas são extraídas do roteiro). Agenor aceita a aproximação de Kátia, encantado com seu entusiasmo e vitalidade. Certa noite vai ao apartamento dela, e os dois se envolvem sexualmente. Esta noite e a manhã seguinte são estendidas por 20 capítulos. Há o uso recorrente de flashbacks, e grandes hiatos (cerca de dez capítulos em que os personagens não aparecem).



Artur da Távola escreveu sobre a audiência da novela em abril de 1976, na revista Amiga TV: “O fim do mês de abril (...) marca também a conclusão da novela ‘O grito’, uma das mais discutidas, contestadas, defendidas ou exaltadas, dentre as que a Rede Globo apresentou em seu horário chamemo-lo adulto, o das dez da noite. ‘O grito’ gerou um dos mais estranhos fenômenos de audiência dos últimos tempos. Normalmente a novela das dez tem uma média de audiência mais ou menos fixa. Esta tinha dias de piques mais altos que as demais do horário e dias de acentuadas quedas durante o período em que estava no ar, quedas estas igualmente recordistas (como os piques)”.



Uma hipótese para a variação de audiência é justamente a oscilação de ritmo, decorrente da construção temporal.

Bibliografia

ANDRADE, J. O grito. Roteiro microfilmado. Acervo Centro de documentação da TV Globo, Rio de Janeiro, 1976.

CAMPEDELLI, S.Y. A telenovela. São Paulo: Ática, 1985.

DUTRA, M. H. Um grito absurdo. Veja, São Paulo, 12 nov. 1975.

MAGALDI, S. Um painel histórico. In: Moderna dramaturgia brasileira. São Paulo: Perspectiva, 1998, p. 43-56.

Projeto Memória das Organizações Globo. Dicionário da TV Globo (Vol. 1). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

TAVOLA, A. O grito, uma novela polêmica. Amiga TV, São Paulo, 28 abr. 1976. Fonte: Banco de dados TV-Pesquisa, PUC-Rio. .

XAVIER, N. Almanaque da telenovela brasileira. São Paulo: Panda Books, 2007.