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  Título
Atravessamentos da literatura e da videoarte no cinema de Greenaway
Autor
marina pantoja boechat
Resumo Expandido
Peter Greenaway apresenta desde o início de sua carreira uma produção bastante variada em termos de recursos, formatos e circuitos de veiculação, mas muito consistente em termos de suas proposições artísticas e de sua proposta estética geral. Seja em filmes para o circuito tradicional de cinema, em projetos para a televisão inglesa, intervenções urbanas, incursões no teatro e na ópera, em videoinstalações e, mais recentemente, nas performances audiovisuais como VJ, o tema da coleção povoa fortemente seu discurso ao mesmo tempo que organiza e norteia o desenrolar da duração da narrativa.



O próprio cineasta, frequentemente indagado a respeito da presença de elementos do Barroco em seu trabalho, dada a complexidade de suas composições, costuma ponderar que se considera mais alinhado com as propostas contemporâneas, pois se vê muitas vezes como um colecionador, definindo um método e mantendo-se nele. Essa perspectiva de manter-se fiel a um método, que o leva a ter um critério constante e cíclico como temática e norte para toda a composição de um projeto, é uma chave para um dos pontos de fuga por onde seu cinema extrapola os formatos da narrativa audiovisual ficcional tradicional.



Podemos, neste aspecto, tomar como exemplo o filme A última tempestade – Prospero's books, no original em inglês –, de 1991, baseado na peça A tempestade, de Shakespeare. Dialogando com o texto original, vê-se o método de Greenaway, que faz intercalar com a narração descrições dos 24 livros da coleção de Prospero, o personagem principal. Tais descrições são como chaves para o encadeamento da narrativa e para acentuar suas passagens, pois explicitam e ampliam temáticas subjacentes no próprio texto original. Ao mesmo tempo, está claro, trazer para a superfície aspectos de enumeração tão metódica enfraquece a representação das intensidades dramáticas da narração tradicional em prol de uma apresentação sucessiva de signos entremeada de sentido relacional: cinema manifestadamente produtor de sentido, de conceitos.



Esta metódica da coleção, tão característica da obra do cineasta, aponta, como todo acervo, para pelo menos duas direções: para o passado na incorporação de itens dados (como o texto-fonte do filme), sua modularização em unidades de acervo e a retomada (sempre interpretaviva) de suas referências; e ao mesmo tempo para o futuro, ao constituir um novo campo (ou pelo menos um novo conjunto) semântico e novas narrativas potenciais e em atualização.



No caso de Greenaway, vemos, no filme A última tempestade, a inserção do texto em um regime ao mesmo tempo profundamente citacional (pelas referências renascentistas e de diversas outras fontes que se aglomeram na tela) e ao mesmo tempo muito diferente do que seria esperado em uma adptação considerada fiel. Nesse sentido, o filme se coloca em um terreno profundamente anti-mimético, apesar de citar todo um arsenal imagético poderosamente referencial. E é a partir da repetição não-mimética, nesta enumeração iterativa, que se desconstrói e se revaloriza o texto de Shakespeare, por exemplo, e que são reforçados os atravessamentos com os conteúdos e o modus operandi da arte contemporânea.



A partir das chaves descritas, este trabalho pretende observar, no filme citado e de forma mais geral na obra de Greenaway, alguns pontos que ampliem a discussão acerca da criação de acervos como método produtivo e da transtextualidade no cinema enquanto arte.
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