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  Título
LUXO PARA TODOS: cinema e comunicação, dialogismo e polifonia
Autor
Luiz Antonio Mousinho Magalhães
Resumo Expandido
Pretendemos refletir sobre o conceito de dialogismo (BAKHTIN, 1983) e seu rendimento na discussão de aspectos de recepção e produção cinematográfica no Brasil, observando acontecimentos específicos tomados como emblemáticos e tentando conceber a abordagem do objeto artístico como “atividade produtiva, receptiva e comunicativa” (JAUSS, 1979, p.9). Procuraremos ancorar a discussão na observação de dois modelos de cinema, o cinema clássico americano, a princípio comunicável, previsível, fechado e o cinema de arte europeu, a princípio com investimento no incomunicável (“ou ao menos de comunicabilidade problemática”), no imprevisível, no aberto, partindo da teorização de João Batista de Brito (BRITO, 1995, p.197). Obviamente estaremos matizando as linhas duras desta distinção, a ser tomada em sentido estratégico e operatório, observando as permeabilidades e nuances desses modelos.

Partindo de uma tipologia provisória (e assumidamente precária e esquemática) em termos de espectador especializado e espectador não-especializado, vamos procurar observar as tensões e atrações entre os dois modelos de cinema em certos ambientes de produção e recepção, partindo de eventos singulares, mas que pretendemos discutir como sendo sintomáticos de reações entre modelos historicamente colocados e que atestaria o diálogo (ou sua falta) entre o modelo hegemônico hollywoodiano e seu anti-cinema correspondente.

Nos apoiaremos ainda nos conceitos de automatização e desautomatização, conforme propostos de Victor Chklovski (CHKLOVSKI, 1976). No campo cinematográfico (e comunicacional) partiremos de Robert Stam no que ele aponta a interlocução entre Bakhtin e os formalistas russos, colocando em inter-relação (e contraposição) os conceitos de desautomatização e dialogismo. Como assinala Stam, “a concepção bakhtiniana de ‘intertextualidade’ não conduz a uma hostilidade simplista em relação ao passado: à negação do significado desgastado e não à infusão com um novo significado” (STAM, 1992, p.25).

Afirmando que Bakhtin usava os termos de dialogismo e polifonia de maneira indistinta, Diana Barros percebe como, na obra do autor, o termo dialogismo recobre o princípio dialógico constitutivo da linguagem e de todo discurso. Já a polifonia caracterizaria certo tipo de texto, aquele em que o dialogismo se deixa ver, aquele em que são percebidas muitas vozes, por oposição aos textos monofônicos que escondem os diálogos que os constituem (BARROS, 1997, p.28). Valerá pensar até que ponto a tradição tem sido refletida ou paira irrefletida (e pouco potencializada) na criação e na recepção do audiovisual brasileiro. De como se perfaz dialogicamente os processos de produção e recepção e se estes assumem as várias vozes que os permeiam.

Poderíamos apontar como dados observáveis (que vamos ancorar em exemplos) certa rejeição por parte do espectador não-especializado aos finais abertos e disfóricos; à dificuldade de compreensão das relações representadas (por vezes afins à mimesis de produção, que desconstrói o referente) (LIMA, 1980, p.169) e certa aposta num gesto de contra-comunicação (BARTHES,s/d), notadamente de viés modernista (MASCARELLO, 2003). Por outro lado, poderíamos contrapor tal rejeição à postura de espectadores que estamos chamando aqui de especializados (críticos, jornalistas culturais, cineclubistas e cinéfilos em geral), invertendo os pólos da espectação não-especializada, isso desde a rejeição de aspectos formais e temáticos até a recusa de um tipo de conformação afim ao pós-modernismo, por mesclar metacinema com elementos narrativos de alta-comunibabilidade (PUCCI, 2007).

Pensando já no pólo da produção, vale verificar até que ponto esses lances de anti-cinema assumem um diálogo com a tradição dominante, indiciando um tratamento polifônico, ou silencia tal diálogo. No outro pólo, poderíamos buscar entender sobre qual a capacidade do cinema narrativo adotar aspectos do cinema de desconstrução, potencializando-os em termos de ganho discursivo.



Bibliografia

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1983.

BARROS, D. Contribuições de Bakhtin às teorias do discurso. In: BRAIT, B. (org.) Bakhtin, dialogismo e construção de sentido. Campinas: SP: Edunicamp, 1997.

BRITO, J. B. Imagens amadas. São Paulo: Ateliê editorial, 1997.p.196-198.

CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: EIKHENBAUM, B. Teoria da literatura. Porto Alegre: Globo, 1976.p.45

GENETTE, G. O discurso da narrativa. Lisboa: Vega, s/d.

JAUSS, H.R. A estética da recepção. In: LIMA, L.C. A literatura e o leitor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p.9-40

MASCARELLO,F.Procura-se a audiência cinematográfica. In: MACHADO JR, Rubens et. al. Estudos de cinema Socine. São Paulo: Socine, 2006. p.127-134.

PUCCI, R. Cinema moderno e de vanguarda na tv. In: HAMBURGUER, E. et al. Estudos de cinema. São Paulo: Annablume; Fapesp; Socine, 2008. p.325-332.

STAM, R. Bakhtin – da teoria literária à cultura de massa. São Paulo: Ática, 1992.