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  Título
Maluquinhos e demônios: travessuras no cinema infantil brasileiro
Autor
Mirian Ou
Resumo Expandido
O personagem do menino travesso é recorrente no cinema voltado para o público familiar e/ou infantil. É possível citar “Os óculos do vovô” (Francisco Santos, 1913), passando por “O Saci” (Rodolfo Nanni, 1953), o díptico “Menino Maluquinho – o Filme” (Helvécio Ratton, 1995) e “Menino Maluquinho 2 – a Aventura” (Fernando Meirelles e Fabrizia Alves Pinto, 1999) e “Os Três Zuretas em A Reunião dos Demônios” (Cecílio Neto, 2000), para citar apenas alguns exemplares do cinema brasileiro. Em geral, o personagem carrega características opostas, às vezes contraditórias: astúcia e inocência, graça e egoísmo, bondade e maldade, ousadia e medo, criatividade e destruição. Representando o ápice da curiosidade, liberdade e imaginação infantis, o personagem do menino travesso costuma ser cercado por um clima de nostalgia e de exaltação da infância.

Em “Menino Maluquinho – o Filme” (1995), há uma referência explícita ao Saci, que é, além de símbolo da cultura brasileira, um moleque peralta. Tanto o Saci quanto os meninos travessos transgridem a fronteira dos bons costumes e desafiam autoridades. Em “Maluquinho” e em “Os Três Zuretas”, as crianças praticam com certa liberdade atos reprováveis do ponto de vista do “politicamente correto”, como xingar deficientes, ver revistas de “sacanagem”, responder à professora e desejar a morte do professor. Estarrecem adultos e crianças e, de certa forma, assemelham-se ao conceito antropológico do “trickster”. Este teria uma função social de questionar e quebrar as normas vigentes, fazendo muitas coisas que todos secretamente gostariam de fazer, o que normalmente termina numa situação caótica. Assim, serviriam também, de forma um tanto catártica, como agente da ordem (QUEIROZ, 1987).

Personagem em princípio polêmico, ele é desenvolvido de forma bem diferente nos filmes em questão, apesar de ter muito em comum do ponto de vista da fábula: tanto Maluquinho quanto Quim, personagem principal de “Os Três Zuretas”, são meninos da cidade, enfrentam a separação dos pais e passam uma temporada no interior com os avós. Ambos têm no avô um grande amigo, a quem dão vigor, e enfrentam posteriormente sua morte. No entanto, a construção da imagem pelo enquadramento, decupagem e mise-en-scène mostra Maluquinho como um travesso “showman”. Exibe sua arte e sua travessura com graça e é visto pelos adultos com resignada complacência. Está quase sempre alegre e lida bem com as perdas. Já em “Os Três Zuretas”, as crianças vivem em um mundo à espreita dos adultos, onde a dor, o mal-estar e as dúvidas são tão frequentes quanto suas traquinagens e momentos apoteóticos. A relação construída entre a criança travessa e o ambiente que o cerca nos dois filmes mostra as diferenças deste olhar sobre a infância e para a infância.

Ao discorrer sobre essas diferenças, cabe uma reflexão sobre as fronteiras do gênero cinematográfico infantil e a funcionalidade dessa categorização tanto do ponto de vista da produção, quanto da crítica e do consumo desses filmes.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. "Film/Genre". London: British Film Institute, 2006.

BERGALA, Alain. "L’Hypothèse Cinéma. Petit traité de transmission du cinéma à l’école et ailleurs". Paris: Petite Bibliothèque des Cahiers du Cinéma, 2002.

NAGIB, Lúcia. "O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90". São Paulo: Ed. 34, 2002.

QUEIROZ, Renato da Silva. "Um mito bem brasileiro : estudo antropológico sobre o Saci". São Paulo: Polis, 1987.